Entrevista

Como ir até o fim do mundo (literalmente)

Um brasileiro navega até a Antártida, um lugar que nem o Google Maps foi – e ele pode levar você até lá

Velejando até a Antártida

Às vezes, a vida tem dessas contradições. Eu gosto de água em três situações: para matar a sede, para me limpar e para me embalar o sono, e cá estou escrevendo um texto sobre Charlie Flesch, o homem mais marítimo que eu já conheci.

E o que me leva a escrever este texto é que Flesch será o único brasileiro a oferecer travessias regulares até a Antártida, um dos lugares mais remotos da mundo. Apenas cientistas vivem naquele pedaço inóspito de terra, e temporariamente; o continente é tão remoto que nem mesmo o Google Maps foi até lá. E é para este lugar que Charlie Flesch irá navegar durante todo o verão: embarque com ele e você poderá passar três semanas pelos mares gelados do sul, vendo de perto a fauna antártica, como pinguins e leões marinhos.

Como um homem se torna marítimo? Bem, a vida de cada homem é contada em grande parte pelas suas obsessões. “Desde criança eu me encantava com os programas do francês Jacques Cousteau que, por ter sido o inventor do equipamento de mergulho como conhecemos hoje, foi o pioneiro a produzir e mostrar ao mundo as belezas subaquáticas do planeta. Dali surgiu em mim o desejo de mergulhar o mundo”, conta Charlie Flesch por email desde Ilhabela, onde se preparava para zarpar com a Fernande, seu barco, para a Patagônia.

“Comecei a mergulhar aos 14 anos. No primeiro milissegundo usando o equipamento pela primeira vez, ainda na piscina, eu já sabia que seria um profissional do mergulho e biólogo para poder dedicar minha vida a estar na natureza”, relembra Flesch.

Foi mais ou menos nessa época que a obsessão de Charlie Flesch pelo mar ganhou outro ingrediente: a Antártida.

Velejando até a Antártida

Aos 12 anos de idade, ao fazer um trabalho de geografia para a escola, ouvi falar pela primeira vez da Antártida e me encantei a ponto de um dia querer muito conhecer. Na adolescência, o Amyr Klink, primeiro brasileiro a invernar de veleiro na Antártida, despertou minha alma aventureira e quando eu tinha 18 anos foi a vez da família Schurmann mostrar que pessoas comuns também podiam desbravar o mundo, e de veleiro. Foi uma questão de tempo unir as palavras ‘Antártida’ e ‘veleiro’”.

Dos programas de TV e das aulas de geografia até ser o único brasileiro a oferecer viagens regulares à Antártida, a obsessão de Flesch basicamente construiu uma vida digna dos exploradores do século 18. “Perseguir meus sonhos a todo custo teve a consequência de ter morado na Inglaterra, Egito, Argentina e Uruguai; de trabalhar em Fernando de Noronha, no Mar Vermelho, na Polinésia e na Antártida; de guiar grupos de mergulho, de conduzir viagens educativas na Amazônia, Pantanal e diversos parques nacionais da Mata Atlântica; de dar palestras em navios sobre os ecossistemas brasileiros e de ser marinheiro em veleiros à prova de bala, dentre eles na última volta ao mundo da família Schurmann”.

Foi trabalhando com a família Schurmann em uma expedição até a Polinésia Francesa que sua carreira de mergulhador atingiu o ápice. Se você assiste ao Fantástico, deve se lembrar de ter visto um episódio do programa da família Schurmann em que uma baleia desfila graciosamente ao lado do mergulhador da expedição – era Flesch, em um momento que ele qualifica como um dos mais felizes de sua vida.

***



A Antártida permanece ainda hoje como um dos lugares mais intocados pelo homem em todo mundo. Isso se deve não só à natureza áspera do lugar, mas também à dificuldade em chegar lá. Só é possível viajar para a Antártida de barco, e ainda assim é uma das travessias mais difíceis do mundo, cortesia da passagem de Drake.

Ao acabar a América do Sul, os oceanos correm livremente por todo o globo, sem nenhuma massa de terra para atenuar suas correntes. Adicione a isso a força dos ventos que sopram da Antártida – que, no Brasil, recebem o nome de “massa de ar polar” e são temidas por todos os brasileiros das regiões Sul e Sudeste – e o que você tem é um inferno no mar. Desde o século 16, quando o navegador inglês Francis Drake navegou pela primeira vez por estas águas, a região é temida por navegadores do mundo todo. Quer dizer, não por todos.

Há uma aura muito forte em torno do Drake, mas que precisa ser desmistificada”, diz Fletsch. “Sim, esse trecho de mar é um dos mais tempestuosos e ventosos e frios que se pode encontrar, mas isso não quer dizer que 100% do tempo navega-se debaixo de tempestade. Hoje em dia, com o recurso de previsão do tempo cada vez mais preciso e com a possibilidade de usar comunicação via satélite para atualizá-lo ao longo da navegação, é muito difícil que uma super tempestade pegue qualquer barco desprevenido. Além disso, os veleiros que navegam por ali têm uma construção do que chamo brincando de ‘à prova de bala, feitos para navegar até no inferno, mesmo que ele congele’. Curiosamente, minha primeira travessia foi com o Drake tão calmo que parecia o lago do Parque do Ibirapuera em São Paulo, uma situação bastante frustrante, devo confessar. Em geral o mar engrossa um pouco em algum momento, mas pessoas dizem que não foi tão difícil quanto elas esperavam”.

Flesch foi pupilo do velejador mais experiente em atividade na Antártida no momento, o holandês Henk Boersma. Espécie de lenda dentre todos os veleiros que fazem o trajeto entre Ushuaia e Antártida, Boersma tem mais de 50 viagens neste percurso em seu currículo. Foi com ele que Flesch aprendeu os macetes do Atlântico Sul. Porém, para isso, Flesch passou por uns dos exames mais incomuns em sua vida: o das mãos.

Em 2011, depois de aprender o básico na represa de Guarapiranga, em São Paulo, Charlie enviou uma série de emails para os capitães dos veleiros que saíam de Ushuaia, na Argentina, para a Antártida. Ele redigiu um texto humilde, em que reconhecia sua inexperiência, mas que tinha o sonho de conhecer a Antártida e a paixão em trabalhar em um barco. Como era de esperar, ninguém respondeu. Algum tempo depois, porém, havia um email em sua caixa de entrada – era de Boersma, dizendo que tinha gostado da mensagem, mas que não tinha nenhuma oportunidade no momento.

Flesch não desistiu: seguiu para o Ushuaia, esperando convencer pessoalmente algum capitão a lhe oferecer trabalho. Foi então que conheceu Boersma, mas o encontro não foi promissor. “Eu disse que era aquele cara que tinha mandado o email que ele tinha gostado. Perguntei porque, e me respondeu que eu havia sido humilde, que está cansado de receber emails de pessoas dizendo que são o máximo. Mas pediu para ver minha mão, e ao ver que não tinham calos, disse ‘você tem mãos de acadêmico e não aguenta o trabalho’. Virou as costas e saiu andando”, relembra Charlie.

De volta ao Brasil, em 2012, Flesch entrou de fato na vida de acadêmico, tirando a habilitação da Marinha brasileira para Capitão Amador e lendo tudo sobre veleiros, enquanto tentava navegar o máximo possível. Depois de dois anos de estudo e alguma prática, Flesch voltou ao Ushuaia e em 2014, conseguiu ser contratado por Boersma.

Depois de navegar com o velejador holandês por uma temporada, Flesch foi abordado por Pierre Schurmann, que conhecera a reputação de Charlie em Ushuaia. Como a navegação para a Antártida seria interrompida em março, devido a fatores climáticos, Flesch estava livre para participar da navegação que os Schurmann empreenderiam até a Polinésia Francesa, também em 2014. Charlie era o segundo imediato, cozinheiro e o chefe de mergulho da Expedição Oriente, que saiu do Chile e chegou até a Polinésia Francesa.

Quando Flesch retomou o trabalho no barco de Boersma, em 2015, uma ideia já fizera ninho em sua mente: por que não comprar um barco e virar capitão? Havia o problema do dinheiro, claro; mas também havia o problema de que barcos que possam aguentar os ventos e as correntezas do Atlântico Sul não são tão fáceis de encontrar.

Foi só em 2016 que Flesch finalmente encontrou Fernande – um veleiro com quase quarenta anos de idade, que já deu duas voltas ao mundo e, posteriormente, foi modificado especialmente para expedições no gelo, tendo visitado a Antártida quinze vezes. “O barco é o equivalente aos carros que correm o rali Paris-Dacar”, comenta Flesch, orgulhoso.




Quase um ano depois de trabalhar para deixar o barco do jeito que queria, em outubro de 2017 Flesch zarpou da Ilhabela para o Uruguai, na viagem inaugural da nova etapa de vida de Fernande – e da sua também. Depois do Uruguai, Flesch rumará para o Ushuaia, de onde saem os barcos que navegam até a Antártida.

E aí, Flesch passará a viver seu sonho – algo que ele achou que não iria conseguir.

Perseguir sonhos malucos é uma tarefa bastante difícil e normalmente de pouca recompensa financeira. Aos 30 e poucos anos cheguei a pensar em desistir e ‘tomar vergonha na cara’ como algumas pessoas próximas me incentivaram a fazer… acho que meu maior acerto foi não ter dado ouvidos a elas”, Fletsch pondera. “Outro dia o Vilfredo Schurmann, o pai da família, veio me visitar a bordo e suas últimas palavras, olhando muito profundamente nos meus olhos, foram “não desista nunca, não desista NUNCA!

Sobre a navegação para a Antártida

O Fernande zarpa de Ushuaia, na Argentina. Você precisa pegar um voo até Buenos Aires e de lá, outro voo para Ushuaia.

A viagem dura três semanas. A primeira semana é a travessia até a Antártida; a segunda semana é consumida na exploração do continente e a terceira semana é a viagem de volta para o Ushuaia. Durante a expedição, são servidas três refeições.

Mais informações em https://www.homozarpiens.com/

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Eduardo Furtado

Escritor, tradutor e viajante, autor do livro "Nos Trilhos dos Andes".

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