Petropavlovsk-Kamchatsky: perdidos na Sibéria

Petropavlovsk-Kamchatsky: a primeira cidade fora do Ocidente

Então, desde que a viagem começou existiam dois trechos já planejados que nós faríamos. O primeiro era a viagem de barco pelo Rio Amazonas e o segundo era cruzar dos Estados Unidos para a Rússia, voando pelo Estreito de Bering. E assim surgiu Petropavlovsk-Kamchatsky nas nossas vidas.

Eu estava bem animada para chegar por lá porque pra mim seria o primeiro lugar mais “fora da área de conforto”. Até então, estávamos passando por lugares que de alguma forma eram confortáveis…as línguas eram familiares (espanhol e inglês), as comidas eram conhecidas…agora tudo iria mudar. Será? (rs)

Bem, é sobre toda essa aventura – pode-se dizer que foi uma aventura mesmo – que vou falar hoje. =)

Saindo dos Estados Unidos e seguindo para a Sibéria

Para começo de conversa, não é possível sobrevoar o Estreito de Bering em qualquer momento do ano, apenas no verão. O que nos dava uma janela de pouco tempo para conseguir “correr” até o Alaska. Mas conseguimos!

A ideia inicial do Edu era seguir para outra cidade na Sibéria, Anadyr, em Chukotka. Mas para entrar precisava de uma carta convite do governo que era cara e meio incerta de conseguir. Resquícios da Guerra-Fria… então, decidimos por Petropavlovsk que não tinha essa burocracia.

Nós compramos a passagem de Anchorage para Petropavlovsk-Kamchatsky quando estávamos em Los Mochis, em uma internet terrível que não pegava muito bem e deixou tudo mais interessante. hahaha

A passagem não é barata e compramos direto de um cara com um certo medo de algo dar errado. Edu que fez a transição toda e alguns minutos depois, chegou o comprovante da passagem (UFA!).

Como a passagem não era reembolsável, se perdêssemos o voo, perderíamos uma baita grana, por isso a gente quase infartou quando o agente da imigração americana em Juaréz quase não nos deixa entrar no país.

Entre a compra da passagem e o embarque efetivamente, foram alguns meses. Então a ansiedade da compra só voltou quando já era o dia de embarcar, na madrugada, no frio do verão do Alaska. (rs)



Chegamos por lá, esperamos na fila enquanto observávamos as pessoas que seguiam para lá. A maioria eram caçadores, com equipamentos e tudo mais. Entregamos nosso papel da imigração pra atendente (que falava inglês), pegamos nossa passagem e ficamos no aguardo.

O aeroporto estava vazio, só tínhamos nós, passageiros para Petrô (já me sinto íntima da cidade). Chegou a hora do embarque, e lá fomos nós! Olha, me surpreendi com o avião. Achei que ia ser uma espécie de “lotação com asas”, mas que nada. Avião comercial dentro do padrão e com ótimo serviço.

A comida de bordo era boa, claro, boa para uma comida de avião. E o vídeo de segurança era mó engraçado…hahaha Uma animação estilo Hanna e Barbera…todo em russo, claro. Fiquei envergonhada de gravar com a câmera e gravei só na minha memória essa pérola da animação mundial. (rs)

O voo correu bem, com alguma turbulência, mas bem menos do que eu imaginei. Depois de umas quatro horas de voo, chegamos a Petrô. Uma verdadeira viagem no tempo, pois atravessamos a Linha Internacional da Data e pulamos um dia pro futuro! Há, na sua cara Doctor Brown e Marty McFly! hahaha

Bem, era hora de começar a aventura pela Rússia que mal sabíamos…ia começar daqueeele jeito. (rs)

A chegada em Petropavlovsk-Kamchatsky

Quando estava na casa de Anchorage, passei metade do tempo decorando algumas palavras em russo: Obrigada , Por favor, Bom dia e Desculpe. Foquei mais no obrigada como a palavra que não podia esquecer. Premonição!!! (rs)

Como você deve saber, na Rússia eles não usam o alfabeto latino como nós, eles usam o alfabeto cirílico. Lendo sobre a cidade e o país na internet, vi muitas pessoas dizendo que era útil decorar o alfabeto. E foi o que fiz.

Para complementar, baixei um app de dicionário Português-Russo que funcionava offline.

Desembarcamos no meio da pista e ao olhar em volta…bem, a visão era peculiar. Havia uma torre mais ao longe e nada em volta, a não ser um galpão tipo aqueles galpões militares, sabe? Pois bem, era pra lá que estavam todos indo.

Na porta do galpão começou a fila para passar pela imigração. Eram três cabines, cada uma com uma catraca, só podia passar quando a luz estivesse verde. E foi assim que fizemos, separados, cada um pra uma cabine.

Entreguei o passaporte para a moça, arrisquei um bom dia e ela fez uma cara entre “estou com sono, mas agradeço a simpatia” com “te conheço?!?”. Assim que pegou o passaporte ficou claro que não passam muitos brasileiros por lá.

Ela ficou verificando o sistema, possivelmente para ver se nós precisávamos de visto, e o cara da outra cabine, onde o Edu estava, veio falar com ela. Só entendi que falaram “brasileiros” e ela explicou algo pra ele. Provavelmente deve ter falado: Tá sussa, libera ele aí!

E nós fomos liberados. Enchi o pulmão e soltei um obrigado em russo e ela deu um sorriso que ainda não sei se foi de simpatia ou contendo o riso porque devo ter falado errado….hahaha

De lá passamos por uma tenda improvisada no meio da chuva que caia para pegar nossas mochilas. Agradeci de novo e então saímos. Mas não saímos! Estávamos no meio do nada de um aeroporto no meio do nada!

Chegamos lá sem rublo nenhum no bolso, tínhamos nem uma moedinha. (rs) Eu fiquei com as mochilas e Edu foi ver se achava um caixa automático ou algo assim. Claro, não achou nada. Nem caixa, nem táxi…mas disse que um funcionário falou que havia um ponto de ônibus mais pra frente do aeroporto.

Botamos nossas mochilas nas costas e lá fomos nós. Saímos do aeroporto e andamos pelo acostamento da estrada, praticamente inexistente, debaixo de chuva e vento. Sem brincadeira, acho que andamos uns 2 kms até avistar o ponto de ônibus. Onde tinha dois homens esperando.

Fui lá, soltei meu Bom dia em russo, um por favor e abri o celular e digitei “centro da cidade”. Fiz a mímica de “Onde?”, eles tentaram explicar…tentamos mimicar sobre banco ou caixa eletrônico…e então vem uma senhorinha atravessando a rua pro ponto em que estávamos.

O dia que constatei que simpatia não tem idioma!

Pois bem, a senhorinha veio para onde estávamos e tentava entender o que precisávamos. Soltei o bom dia e falei o nome do bairro onde era nossa acomodação. Eu só tinha o nome do bairro nos caracteres latinos e não adiantava mostrar que ela não entendia.  

Quando consegui pronunciar certinho, ela pescou e falou um monte de coisas e fui deduzindo que estávamos longe.

Expliquei por mímica que não tínhamos dinheiro. Nessa hora estava chegando um ônibus, ela nos colocou no ônibus, subiu e pagou pelas nossas passagens. Soltei meu obrigada pros homens que ficaram e lá fomos nós, sem saber para onde exatamente.

Uma pequena pausa na história para dizer que ônibus na Rússia, ou pelo menos na Sibéria, parece quarto de vó, é tudo encapado com tecidos e penduricalhos….rs

Bem, as pessoas no ônibus obviamente nos olhavam com curiosidade, mas todos eram simpáticas e ajudaram com as mochilas. Daí, uns 15 minutos depois, descemos…nós e a senhorinha. Gastei bastante o meu obrigada ensaiado com tanto afinco e todos sorriam quando ouviam. <3

A senhorinha desceu conosco e lá fomos nós conversando…(rs) Eu tentando deduzir algo, ela falando o que sabia relacionado ao Brasil…que era samba e Neymar, até que ela falou algo que me fez parecer aniversário. Eu fiz uma mímica de comemoração, mas fiquei na dúvida.

E aí, quando ela viu que não entendi com certeza, ela pegou o documento dela e me mostrou que era aniversário dela naquele dia!!! =)

Nos ensinou a dizer Feliz Aniversário e nesse meio tempo, nos levou até um banco, onde fizemos câmbio de uns dólares que tínhamos. Depois de uns 10 minutos, quando saímos do banco, ela estava lá nos esperando….pra nos levar no outro ônibus que ia seguir para o bairro onde era o nosso Airbnb.

Ela explicou para o motorista do ônibus onde íamos descer e nós seguimos viagem. Antes disso, eu dei para ela um anel que eu tinha como presente de aniversário. A senhorinha era muito, muito gente boa! Risonha, animada…e salvou a gente! Não fosse ela, estaríamos até hoje no ponto mofando….hahaha

Petrô começou desanimadora no aeroporto, mas depois dessa recepção tão boa da senhorinha, eu já tava mais otimista. E então começa a segunda etapa da aventura por Petropavlovsk.

Perdidos pela COHAB russa

O motorista do ônibus parou e fez que era ali que deveríamos descer. Descemos. Tínhamos o endereço que era o seguinte: ul. Tushkanova, 12/1-31, 683031 Petropavlovsk-Kamchatsky, Rússia.

Só que Tushkanova é o nome na nossa língua. Em russo era Тушканова. Eu tinha conseguido decorar o alfabeto e essa nem é a palavra mais difícil de deduzir, mas em todos caso, se você estiver indo pra Rússia, vale decorar o alfabeto. O mais básico pra você decorar é: o “н” do cirílico é o nosso “n”, “в” é “v” e “И” é o “i”.

Pois bem, descemos. E Tushkanova é a rua com uma grande COHAB – ou BNH pra quem é do Rio -, sabe? Só que ao invés de um condomínio fechado, é a avenida principal e os prédios margeando essa avenida.

Tentamos achar o número 12, não achamos. Daí, achamos um café e paramos lá. Ninguém fala inglês nessa parte do mundo e achei sensacional! Finalmente a sensação de ser “de fora”.

Pois bem, pedimos café, um pão e sentamos. Acabamos nos comunicando por mímicas e um pouco do inglês que a atendente falava. Ela então pediu para tirar uma foto nossa e nós fomos parar no Instagram do café:

Perguntamos se ela sabia onde era o bloco 12, ela não sabia. Terminamos o café e saímos. Então, paramos e perguntamos para um cara de uma lojinha na rua….consegui deduzir que o lado em que estávamos eram os ímpares e do outro os pares. E lá fomos nós para o outro lado.

Tô boa nas deduções! hahaha Era isso mesmo. Achamos o prédio 12, ou o que achávamos que era, e tocamos no 31. Daí, quando subimos, tinha uma galera no lugar e pensamos que tínhamos caído num golpe.

Acontece que a numeração é toda mucho loka e nós estávamos no errado….o nosso era 12-1 e não 12. Por sorte os russos que estavam lá falavam inglês e nos ajudaram a ligar para a pessoa.

O prédio era o prédio ao lado do que estávamos. Chegamos no apê e descobri que todo o inglês pelo qual conversei com a moça do apartamento era do Google Tradutor…hahaha

Pedi desculpas pelo atraso, ela nos mostrou tudo e se despediu. Apesar do nosso atraso de mais de 1h, ela estava lá nos esperando e muito simpática.

A Cohab Russa em Petropavlovsk
A Cohab Russa em Petropavlovsk

Esses prédios tipicamente soviéticos, que me fez pegar as referências das COHAB e BNH no Brasil, são feios por fora, o da foto aqui emcima era o mais bonitinho…rs…e não era o nosso. Os prédios não têm elevador, os corredores são todos meio velhos e rabiscados por dentro o que dá um ar mais “rústico” ainda, mas os apartamentos são ótimos e espaçosos por dentro. Então, estávamos bem instalados.

Sei que o lugar é feio, mas as pessoas todas são tão receptivas e prestativas que eu criei uma paixãozinha com a cidade, confesso.

Depois de nos instalarmos e ver se tinha trabalho, tomamos banho para ir atrás de COMIDAAAAAAA! (rs)

Comendo na Rússia

A moça do apartamento me sugeriu um restaurante que pelo que entendemos era pro outro lado da avenida. Depois de rodar perdidos um pouco, achamos. No restaurante, ninguém falava inglês, nem o cardápio….hahaha

Pra entender foi mesmo no dicionário offline que eu tinha e no Google Tradutor do garçom, que foi muito simpático e paciente conosco….hahaha Conseguimos comer um macarrão e tudo certo.

No dia seguinte eu fui ao mercado e nunca me diverti tanto! hahaha Adoro ir a mercado, confesso. Na Rússia então, melhor ainda. Ficar adivinhando as coisas, olhando embalagem…rs

Nesse mercado tinha uma lanchonete onde comemos um dia e conseguimos sacar dinheiro. E de lá saí com uma espécie de macarrão recheado, um pacote de brócolis congelado e mais umas coisas.

Ou seja, dá pra comer tranquilamente por lá. Não tem nada muito diferente e tinha frango e carne no mercado. Só uma coisa que me lasquei, comprei um troço achando que era creme de leite e era maionese! hahahahaha

No fim, eu achei que ia ser bem pior essa questão e que nada. Nós conseguimos nos virar bem. A cozinha do apê era pequena, mas bem prática. E ainda tinha uns chás de cortesia que tomei numa xícara super cara de vovó russa. <3

Mas nós não ficamos só dentro de casa, claro….

Conhecendo Petropavlovsk-Kamchatsky

Isso tudo que contei até agora foi só a aventura para chegar no apê e viver por lá nos dias em que passamos na cidade, que foram poucos até. Pois bem, no dia seguinte da nossa chegada, saímos para explorar a cidade. De busão mesmo!

Petropavlovsk-Kamchatsky (em russo: Петропавловск-Камчатский) fica na península de Kamchatka, situada na baía Avacha, na parte oriental da península, bem às margens do oceano Pacífico.

A cidade foi fundada em 17 de Outubro de 1740 no lugar de uma aldeia chamada Aushin como presídio de Pedro e Paulo (Петропавловский острог) durante a Segunda Expedição a Kamchatka (1733-1743) começada pelos exploradores Vitus Bering – que dá nome ao Estreito que sobrevoamos – e Aleksei Chirikov, e teve o nome dos barcos (Apóstolo Pedro e Santo Apóstolo Paulo) que formaram a mesma expedição.

Em 1812, ela foi elevada à categoria de cidade com o nome de Porto de Pedro e Paulo (Петропавловская гавань). De 1849 a 1924 ganhou o nome de Petropavlovsky Port (Петропавловский Порт) e, a partir de 1924, o nome definitivo de Petropavlovsk-Kamchatsky.

Nós resolvemos então ir até a parte do porto onde tudo começou e onde as coisas mais bacanas estavam, como a Praça  Lênin que bem ao lado tinha o monumento de Pedro e Paulo.

Praça principal de Petropavlovsk
Praça Lênin, a principal de Petropavlovsk

Rodamos por essa parte do porto, vimos alguns dos prédios históricos, um ou outro com texto em inglês também e depois voltamos para a praça principal. No canto dessa praça tinha uma barraquinha de café, lá fomos nós.

Na fila, um rapaz na nossa frente, novo ainda, percebeu que não éramos dali e falou conosco em inglês. Ele queria aproveitar pra treinar o idioma e foi o nosso Google Tradutor simultâneo para pedir um café com leite….hahaha

As pessoas são muito legais em Petrô! <3

Quando terminamos nosso passeio pela parte central, voltamos pra casa de busão mesmo. Depois do primeiro dia, nós conseguimos usar o transporte público sem nos perder! Achei que íamos ter várias histórias nesse sentido, mas até que conseguimos ser bem safos. =)

A cidade em si não é bonita, nem parece ser muito próspera. Ela é cercada por uma formação montanhosa e vulcânica. Essa característica faz com que a cidade não tenha saída por terra, ou seja, pra chegar e sair de lá só de avião ou de barco. Talvez por isso pareça ser tão parada no tempo, sabe?

Para mim o que mais marcou em Petropavlovsk-Kamchatsky foram as pessoas. Elas são realmente bacanas! Quando estávamos em Nova York , uma moça na rua puxando assunto disse que tinha visitado a Rússia e achou as pessoas mal educadas…não sei como é Moscow (ainda), mas a minha primeira impressão foi super boa!

Bem, chegamos por lá de avião…e sairíamos do mesmo jeito.  Nossa próxima parada na Sibéria: Iskutsk .




Quando minha vida saiu dos trilhos percebi que podia ir pra qualquer lugar. Virei mochileira depois dos 30 e criei o blog pra contar sobre essa aventura.

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