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Medo e delírio no deserto: do México para os Estados Unidos

Cruzamos a fronteira entre o México e os Estados Unidos a pé

“Não deve ser assim tão difícil”, eu pensei ao acordar naquela manhã em Ciudad Juárez. Era finalmente o dia em que nossa viagem iria ganhar outro tom: sairíamos do mundo familiar e confortável da América Latina para entrar nos Estados Unidos.

A maioria das pessoas faz esta transição sem se dar conta, já que há uma separação entre a cultura de origem e a cultura de destino: o avião. É como se fôssemos transportados por um vazio total, onde absolutamente nada acontece por horas, sendo depositados depois em um ambiente ainda mais estranho – o aeroporto, onde a tristeza da despedida apenas realça a expectativa da partida, um lugar de onde quem chega ou quem vai quer se ver livre o mais rápido possível. Como já disseram antes, um não-lugar.

É por isso que quem viaja de avião sempre considera que a viagem começa de verdade quando finalmente coloca os pés para fora do aeroporto, em busca do táxi que irá levar até o hotel. O tempo decorrido entre o aeroporto de embarque, o voo e o aeroporto de desembarque nunca conta, sendo sempre um vácuo ignorado na história daquela viagem.

Era nisso que eu pensava ao revisar meus documentos pela última vez. Ali, prestes a iniciar a aventura, tudo aquilo me parecia um absurdo: dois dias em uma das cidades mais violentas do mundo, para cruzar uma das fronteiras mais difíceis na história da diplomacia a pé, cada um carregando quase vinte quilos nas costas. Para piorar, Trump agora era o presidente, com sua retórica anti-imigração claramente direcionada aos mexicanos.

A imprensa noticiava as suas histórias tradicionais de terror e pânico após a posse de Trump: a escritora australiana que fora detida sem explicações por mais de duas horas em um aeroporto de Nova York; o endurecimento dos critérios de entrada na fronteira mexicana levando às injustiças de sempre; e as cem mil crianças da América Central refugiadas no sul do México, depois de serem impedidas nos Estados Unidos.

E, no entanto, eu pensava que todas estas dificuldades só aumentavam o valor do esforço. O que é a pós-verdade senão a última fronteira da colonização – a de nossas mentes? A única forma de se manter independente é coletar suas próprias experiências, sem se importar com as opiniões e as notícias tão abundantes hoje. Nesse sentido, o viajante se torna mais parecido com o explorador do século 18, porque é necessário transpor perigos desconhecidos para vivenciar o mundo real como ele realmente é, sem as máscaras e os disfarces impostos pela pós-verdade.

Nesse espírito, às dez e meia de uma manhã absurdamente azul saímos do nosso hotel em direção à Ponte Internacional Santa Fe, o lugar escolhido para a nossa travessia. Ao entrarmos no táxi, o motorista já sabia para onde nos levar – ele apenas fez uma pergunta para confirmar sua intuição. E lá ele nos deixou, apenas dez minutos depois. À nossa frente, estava a ponte.

Ponte do México para os Estados Unidos
A entrada da ponte

O trânsito de carros para entrar nos Estados Unidos era intenso e já parava a Avenida Benito Juárez, que sai do centro da cidade e vai diretamente até a ponte. Em Ciudad Juárez, todos os caminhos levam aos Estados Unidos.

Antes de chegar na ponte, porém, é preciso pagar o pedágio de um dólar por pessoa, sendo que a catraca eletrônica só aceita moedas de 0,25 dólar. Reviramos os nossos bolsos e encontramos as 8 moedas necessárias por pura sorte. “Não deve ser assim tão difícil”, repeti para mim mesmo, otimista.

Ponte Santa Fe em Juarez

Começamos a subir a ponte, driblando camelôs, gente voltando para o lado mexicano e mendigos. A ponte é uma espécie de arco sobre o Rio Grande, cercada por um alambrado de dois metros de altura. A calçada é coberta com um teto plástico, mas é muito próxima da pista dos carros. Quando chegamos no ponto mais alto do arco, olhei para baixo e vi o Rio Grande – um fio de água escorrendo no canal de cimento, com mato e restos de construção no que foram suas margens.

Quando chegamos ao outro lado da ponte, não vimos nenhum órgão do governo mexicano para nos dar a saída do país. Isso nos confundiu, porque não tínhamos visto a Imigração mexicana ao pé da ponte em Ciudad Juárez, o que nos levou a supor que tudo era feito em um só edifício, já que ambos os países são signatários do NAFTA. Se o Peru e o Equador dividem o mesmo prédio em Huaquillas, e os dois países estiveram em guerra há vinte anos, por que os EUA e o México não podiam fazer o mesmo?

Pois não fazem. Tivemos de voltar para o início da ponte, no lado mexicano, para procurar o lugar onde daríamos saída do país. Ficamos andando por ali e um senhor se juntou à nós, até que encontrei uma porta, tímida diante da entrada para o banheiro. Subimos nós três pelas escadas até chegarmos à uma repartição pública completamente vazia. Logo, porém, um funcionário veio ao nosso encontro e disse que poderíamos dar a saída lá. No entanto, havia um problema: não tínhamos pago a taxa de saída.

Não está sendo fácil
Katia sabe o que diz..

Não sabíamos nada sobre essa taxa de saída, porque havia sido implantada depois de nossa entrada no país. O funcionário nos explicou: tínhamos de ir ao Instituto Nacional de Migración, distante pouco mais de um quilômetro, para pagar as taxas de 500 pesos por pessoa. O funcionário ainda disse que poderíamos pagar com cartão.

“Realmente, não deve ser assim tão difícil”, repeti como um mantra, enquanto acelerávamos pela Calle Malecón até a Avenida Lerdo. Achamos a repartição, que fica meio que escondida atrás de um estacionamento, e peguei a fila para o primeiro guichê. Quando chegou minha vez, o funcionário pegou nossos passaportes e começou a preencher um formulário. Aí, ele perguntou como iríamos pagar.

– Com cartão – respondi.

– Impossível – ele respondeu de imediato. – Só aceitamos dinheiro.

– Mas eu não tenho pesos, estou saindo do país – contestei.

– O pagamento pode ser em dólares – ele respondeu.

Aquilo me pareceu um golpe, mas eu não tinha opção: era preciso correr até um caixa eletrônico. Perguntei onde estava o mais próximo e o funcionário respondeu que estava no centro da cidade.

Andei mais um quilômetro e meio para achar um caixa no centro de Juárez. Havia uma fila de pelo menos vinte pessoas à minha frente, o que me custou meia hora para chegar até o terminal. Fiz o saque e voltei fazendo cálculos financeiros mentais: aqueles mil pesos iriam fazer falta, no outro lado da fronteira.

Quando cheguei na repartição, fui direto ao guichê de pagamento, mas o caixa me redirecionou para outro guichê, onde um funcionário banguela almoçava. Ele interrompeu seu almoço para nos atender: pegou nossos passaportes, preencheu duas folhas de papel e me deu permissão para voltar ao caixa. Foi aí que vi um terminal de pagamento eletrônico escondido atrás do computador. Perguntei ao caixa se era possível pagar em cartão; ele disse que não, só em dinheiro. Então respondi que eu não tinha dinheiro, porque estava saindo do país; quem voltaria para casa com mil pesos mexicanos? O caixa parou para pensar e então respondeu que iria ver se o terminal de pagamento eletrônico estava funcionando.

Depois de alguns minutos, ele me perguntou se eu não tinha como sacar o dinheiro em algum caixa eletrônico. Respondi que o caixa eletrônico mais próximo estava muito longe e que eu tinha horário para chegar aos EUA. Resignado, ele decidiu então que a maquininha estava funcionando. Mas havia um problema: o cabo do terminal onde eu deveria digitar a senha não alcançava o balcão. Entorta daqui, puxa dali e nada; enfiei minha mão pelo buraco do guichê, e nada. Então o caixa se levantou, abriu a porta e eu entrei no guichê para digitar a senha do cartão. “Não deveria ser assim tão difícil…”

Voltei então ao outro guichê, onde nossos passaportes foram finalmente carimbados com a saída do México. Hora de voltar para a ponte!

Remexemos nossos bolsos e milagrosamente encontramos mais 8 moedas de um quarto de dólar. Cruzamos a catraca e finalmente daríamos entrada nos EUA. No entanto, algo dentro de mim me impedia de dar adeus ao México. Eu estava ficando ainda mais ansioso.

Quando chegamos na imigração norte-americana, pegamos uma das filas para entrar no país. Há filas para mexicanos, há filas para mexicanos com visto permanente, há filas para norte-americanos e há a fila para todos os outros, que era a maior e era onde estávamos. Depois de uns dez minutos, chegou a nossa vez; o agente de imigração pegou nossos passaportes, mas logo nos devolveu: era preciso solicitar a permissão de entrada, em uma sala separada.

O trâmite de entrada por terra é completamente diferente do praticado em um aeroporto. Em um posto fronteiriço, o turista precisa de uma permissão de entrada, que é concedida por outros agentes de imigração. Apenas cidadãos de países que não precisam de visto para entrar nos EUA são dispensados de solicitar a permissão de entrada e podem seguir direto para os agentes de imigração da entrada.

O agente de imigração nos indicou a sala e para lá fomos. Ao entrarmos, vimos uma fileira de guichês, quatro fileiras de cadeiras de plástico, sendo que apenas duas estavam ocupadas, e só. Tudo era tão espartano que nos desorientou: onde era a fila? Então um guichê ficou vago e a pessoa sentada na última cadeira da primeira fila se levantou e foi até lá. A pessoa ao lado se levantou e ocupou o assento vago, e todas as outras pessoas fizeram o mesmo. A fila estava sentada. Fomos até a última pessoa da fila e esperamos.

Quando chegamos na primeira fileira de cadeiras, um dos oficiais de imigração estava atendendo o caso de uma mãe com um filho em cadeira de rodas. O garoto fazia um tratamento específico em El Paso e o agente de imigração saiu de seu guichê para brincar com o moleque, dizendo que em breve ele estaria jogando bola. Com isso, levou a mãe e o filho para dentro da repartição, todos de bom humor.

Apesar das boas vibrações daquela cena, aquilo me preocupou: há uma salinha! E a preocupação ficou ainda maior porque logo depois, um agente de imigração saiu levando um sujeito pelo braço, afirmando aos gritos que da próxima vez que ele tentasse enganar alguém, ele seria preso ali mesmo, na hora. Acompanhei com os olhos até o agente de imigração basicamente empurrar o mexicano para dentro da ponte.

Podíamos agora ouvir claramente as histórias que os mexicanos contavam aos oficiais da imigração para justificar sua entrada nos Estados Unidos. Éramos os únicos mochileiros naquela sala: todos os demais eram mexicanos humildes, querendo entrar em El Paso para comemorar aniversários, visitar ou reencontrar parentes, dar prosseguimento a tratamento médico…

Os oficiais faziam todas as perguntas possíveis, analisavam papeis, voltavam a fazer perguntas, digitavam em seus computadores e então davam o veredito: pegue a sua permissão ao lado. Foi aí também que vimos que as permissões custavam seis dólares.

Algumas cadeiras à nossa frente, estava um jovem rechonchudo, cabelo cortado rente, com vários papeis na mão que não consegui identificar. Quando chegou à sua vez, ele disse que pretendia ir à Minneapolis comprar carros usados para revender no México e entregou seus documentos ao oficial. Após uma rápida análise, ele perguntou como o mexicano pretendia pagar pela compra. Ele disse que pegaria dinheiro com uma dívida que cobraria nos Estados Unidos. O oficial disse que precisaria de uma prova de que os carros já estivessem pagos para que ele liberasse o mexicano a retirá-los. Como o mexicano não pode fornecer tal prova, ele teria de recusar a entrada. O mexicano pegou seus papeis e foi embora sem demonstrar a menor frustração em seu rosto.

Nos cinco minutos que estive sentado na primeira fila, ficou claro para mim que ser oficial de imigração em um lugar como este é um dos piores empregos que alguém pode ter. Conjugar o conflito daquelas histórias de pobreza e esperança com uma das leis de imigração mais absurdas do mundo me deixaria um eterno miserável.

Então chegou a nossa vez. Colocamos nossos passaportes e a documentação na janela. O oficial me olhou, pegou meu papel e perguntou para onde eu ia. Respondi todo o itinerário planejado, que incluía um número de cidades bem maior do que ele esperava. Com isso, ele se esqueceu de meu passaporte e dos meus papeis para se fixar na pergunta: como nós iríamos pagar pela viagem?

Finalmente, era isso o que estava faltando: um comprovante de renda! Mas qual? Nem o agente sabia. Extrato bancário atual?

– Não – o agente foi enfático. Depois de pensar um pouco, prosseguiu:

– Os mexicanos trazem um formulário onde aparece a renda anual e impostos pagos. Se vocês tiverem algo assim…

Pelo o que eu entendi, ele queria uma declaração de renda. Saímos em busca de uma lan house onde poderíamos baixar e imprimir nossas declarações, mas uma dúvida me consumia: certamente ele poderia ler espanhol, mas e português? Ao sair da ponte, fomos parados por uma oficial de imigração mexicana: “Foram recusados?”, ela nos perguntou. “Não, só pediram mais documentos”, foi a nossa resposta. Ela nos deixou passar, e ficamos sem entender o que ela faria se tivéssemos respondido que sim.

Avenida Juarez no México
De volta ao México..ilegais!

Seguimos pela avenida do Kentucky Club por uns cinco minutos até chegar perto do centro, onde achamos uma lan house precária no primeiro andar de um prédio antigo. O lugar era surreal: um flat onde alguns computadores estavam alinhados em uma parede que dava para a rua, um sofá onde um sujeito dormia indiferente ao dia e uma cadeira perto de um lugar onde o lixo tinha caído.

Conectamos nossos computadores à rede e depois de bater um pouco a cabeça, estávamos de novo correndo pela Avenida Benito Juárez, mochilas nas costas, tentando salvar o dia – afinal, já eram duas horas da tarde. Eu estava ainda mais ansioso, afinal, estávamos ilegais no México.

Chegamos à catraca sem as moedas de quarto de dólar; comprei uma bala com uma menina na esquina e pedi o troco nas famigeradas moedas. Cruzamos então a ponte pela terceira vez e entramos na sala, que estava bem mais vazia. Não demorou muito e estávamos entregando novamente nossos documentos, ao mesmo oficial.

– Mas isso é como grego para mim!

Soltou os documentos na mesa e repetiu sua pergunta:

– Como vocês pretendem pagar pela viagem?

– Eu trabalho para uma agência de traduções, que me manda os trabalhos online.

– Então você vai trabalhar nos Estados Unidos?

– Tecnicamente, sim, mas eu posso trabalhar de qualquer lugar.

– Você não pode trabalhar nos Estados Unidos – e me devolveu o passaporte e a documentação.

– Mas eu trabalho online, nem mesmo assim?

– Não – e fez aquela cara de fim de papo.

Estava acabado: não podíamos entrar nos Estados Unidos. Voltamos caminhando lentamente para as nossas mochilas, pensando na velocidade da luz qual seria nosso plano B: voltar ao México e de lá pegar um voo para algum lugar? Porém, o que aconteceria antes disso, já que tínhamos feito os procedimentos de saída do México? As ideias vinham, mais fruto do desânimo do que da criatividade, até que me dei conta de um pequeno detalhe: ele não tinha olhado meu visto.

Voltei ao guichê e perguntei a ele o que B1/B2 significavam. Ele me respondeu: B1 era negócios e B2 era turismo. Então caiu a ficha dele; ele me olhou e pediu para ver minha passagem de saída novamente.

Entreguei o papel e ele começou a ler, até que…

– Mas isso está em russo!

Indiquei a ele que havia uma tradução em inglês ao lado de cada campo, afinal as passagens foram compradas de uma agência de viagens em Seattle. Então ele voltou a ler o papel, pegou nossos passaportes e começou a digitar algo em seu computador, em completo silêncio. Depois de algum tempo, ele voltou sua atenção à nós:

– Bom, eu não deveria dar o visto para vocês. Perdi um monte de dinheiro apostando no Brasil em 2014.

Rimos, nós de alívio e ele pela piada. Em breve, ele nos dava a nossa permissão, deixando claro que não poderíamos perdê-la por nada deste mundo, caso contrário teríamos problemas para sair e voltar a entrar nos Estados Unidos. Desejou boa sorte com a nossa viagem e fechou o seu guichê. Olhei para o documento e vi que tínhamos permissão para ficar no país por 180 dias.

Pagamos no caixa ao lado e saímos da sala. Já não havia mais fila para carimbar os passaportes; entregamos a permissão, o oficial comparou nosso rosto com a foto em nossos documentos, carimbou a permissão (mas não o passaporte) e pronto: estávamos em El Paso.

É, não deveria ser assim tão difícil.

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Eduardo Furtado

Escritor, tradutor e viajante, autor do livro "Nos Trilhos dos Andes".

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