México

Da praia ao deserto em um trem no México

El Chepe: uma viagem pelas paisagens do norte do México

Não há muitas ferrovias na América Latina que sejam de inspirar viagens. No Brasil, por exemplo, temos a Curitiba-Paranaguá, que agora acaba em Morretes. No Peru, há a espetacular linha que liga Cusco ao Lago Titicaca. Os Andes, aliás, estão bem servidos, já que o Equador tem o Tren Crucero, que liga a cidade litorânea de Guayaquil à capital Quito. E, ao chegar em Guadalajara, descobrimos que o México também entra nesta seleta lista, com o El Chepe – um trem que sai da cidade de Los Mochis e vai até Chihuahua, aquela mesma da raça de cachorros.

Não foi difícil encontrar o site da linha férrea; difícil foi aceitar que o site não vendia as passagens online. Teríamos de ir até Los Mochis, uma cidade próxima ao litoral do estado de Sinaloa, para comprar as passagens. Havia dois poréns: Los Mochis não é uma cidade turística e Sinaloa está afundada em um conflito entre cartéis de traficantes de drogas. O preço da passagem também não era lá aquelas coisas: 1.767 pesos mexicanos, ou seja, pouco mais de 100 dólares.

A questão é que se formos definir nossos itinerários pelo nível de drama envolvido, nunca sairemos de casa. E Chihuahua era um destino muito conveniente, porque nos deixaria a apenas quatro horas de Ciudad Juárez, onde pretendíamos cruzar a fronteira e entrar nos Estados Unidos. Além do mais, o trem passa por paisagens lindíssimas, como as montanhas da Barranca del Cobre, de onde se extraía o mineral, no começo do século passado, justificando a construção da ferrovia. Decidimos então que quem não morre não vê Deus; iríamos correr o risco de nos metermos em um dos pontos quentes do conflito interno que sangra o México e faríamos a viagem de trem.

Decisão melhor, impossível. De Guadalajara a Los Mochis, a viagem levou cerca de 12 horas nestes ônibus mexicanos que são mais confortáveis que um avião. A duração da viagem é mais influenciada pela quantidade de paradas do que pela distância em si, de forma que sempre há um tempinho para esticar o esqueleto. Em Los Mochis, como há um centro fabril de tamanho razoável, há boa oferta hoteleira econômica. Fizemos nossa reserva pelo site do Ibis e ao desembarcar na rodoviária, o táxi nos levou até lá tranquilamente. O hotel fica em frente à uma praça onde os locais fazem seu footing, para verem e serem vistos.

No dia seguinte, pegamos um táxi e fomos até a estação ferroviária, para comprar as passagens. A estação é bem afastada da cidade e, lamentavelmente, no canto da cidade oposto de onde estávamos. Los Mochis é uma cidade média, com seus 400 mil habitantes, de forma que levou algum tempo para chegar até lá. E, quando chegamos, surpresa: a estação estava fechada, porque era hora de almoço.

A nossa sorte é que o guichê abriu em 15 minutos. E a sorte bateu na nossa porta de novo, porque descobrimos na hora que a ferrovia só aceita dinheiro – sei lá porque tínhamos quase 4 mil pesos no bolso. Talvez algum deus asteca tenha nos dado a dica durante o sono; dizem que no México essas coisas acontecem direto.

Conseguimos comprar para o dia seguinte, às seis da manhã. Voltamos para o hotel animados (dica: ao chegar na estação, peça ao taxista para esperar. Se ele for embora, você terá problemas para voltar à cidade – o local é deserto). Resolvemos comemorar no jantar, com um dos melhores ceviches que se poder comer neste mundo: o de “callo de hacha”, que é a nossa vieira. Só que o litoral norte do México é o habitat natural deste molusco, então eles são enormes e carnudos, a ponto de serem fatiados. Com uma cerveja negra Vitoria, então, beiram a perfeição.

No dia seguinte, chegamos por volta das 5h30 e a estação já estava lotada; para nossa surpresa, El Chepe não é apenas uma linha de trem para turistas, mas sim um meio de transporte realmente usado pela população. O norte do México, apesar de abrigar enormes distritos industriais – a maioria conhecida como maquila – também é uma zona eminentemente rural, o que ficava claro pelas roupas dos passageiros: botas pontiagudas, calças jeans com cintos de fivelas enormes, camisas abotoadas até o pescoço e o indefectível chapéu de cowboy. Éramos os únicos turistas que podíamos distinguir, e isso nos deixava feliz.

O embarque começou de forma um pouco atrapalhada, com um funcionário da ferrovia se colocando diante da porta de embarque e anunciando que iria conferir as passagens; isso fez com que as pessoas se aglomerassem diante dele, sem ordem alguma. No entanto, a confusão foi bem menor do que poderia ter sido. O funcionário leu nossos bilhetes e informou o número de nosso carro; embarcamos e logo achamos nossos assentos. Outro funcionário passou pelo vagão, perguntando se tudo estava bem; ante a confirmação, ele desapareceu para nunca mais ser visto. Para nossa surpresa, o trem partiu pontualmente às seis da manhã.

Lentamente fomos nos afastando de Los Mochis, passando por imensos depósitos de grãos ao margear uma rodovia e depois atravessando os vilarejos próximos à cidade. Começamos então a ganhar altitude por uma zona de vegetação bastante parecida com aqueles cenários de filmes de faroeste: meio deserto, meio bosque, o chão ocre contrastando com as folhas verdes das árvores. Na altura de El Sufragio, apareceu o Rio Fuerte, de águas barrentas.

Nosso vagão estava lotado e algumas pessoas dormiam como se não tivessem saído da cama. Outras se pareciam com zumbis, olhando fixamente para um ponto perdido em algum lugar. O vagão estava na penumbra, o sol ainda muito fraco para iluminar qualquer coisa. Porém, todas elas foram despertando à medida que o sol subia, como se o calor e a luz fossem um despertador. Quando o sol surgiu por completo pelo horizonte e o vagão estava todo iluminado, elas já estavam conversando animadamente entre si.

Homem dormindo em poltrona de trem

Nós ouvíamos as conversas, mas não conseguíamos entender muito porque o sotaque no norte do México é bem carregado, entremeado com palavras em inglês, e as pessoas falavam baixo. Porém, ao nosso lado estava uma família – marido, esposa e um filho. A mulher estava cheia de si, pois seu outro filho estava trabalhando justamente naquela viagem. Ela se virava em seu assento, tentando estabelecer contato visual com outra pessoa para disseminar sua alegria; porém, ninguém estava interessado. A sua única alternativa era nós, mas fomos mais ágeis e jogamos a carta do “estrangeiro que não fala o idioma” e fomos poupados – mas não por muito tempo, como se verá a seguir.

Por volta das 11 da manhã, o trem parou em El Fuerte, uma pitoresca vila às margens do rio. A parada é rápida, apenas o suficiente para alguns passageiros descerem. Logo retomamos o caminho, parando alguns minutos em algumas estações: Témoris, Bahuichivo, Cuiteco e San Rafael. Por estarmos sempre subindo, a velocidade não é alta; por isso, chegamos em Divisadero apenas por volta das 15 horas. Aqui, o trem para por 20 minutos – é a nossa chance de esticar os ossos, comer alguma coisa típica e tirar algumas fotos do impressionante cânion que dá nome ao local. Era daqui que se retirava o cobre que alimentou economicamente a região por muitos anos; a paisagem é deslumbrante.

Panorama de serra

Aproveitamos a oportunidade para comer alguns tamales vendidos nas barracas improvisadas ao lado da estação. Não julgue a aparência: apesar da precariedade, a comida é boa, ainda que feita na pressa, afinal a parada é de apenas 20 minutos. Mas dou a mão à palmatória; naquele momento, estávamos morrendo de fome, porque não tínhamos comido nada desde que entramos no trem. Sim, é verdade: nós não sabíamos que o trem contava com um vagão-restaurante. Só fomos descobrir isso quando a mesma senhora orgulhosa de seu filho veio nos oferecer uma maçã, quase no fim da viagem; ela estava com pena de nós, porque tinha visto que não tínhamos comido nada durante a viagem inteira. Aí ela avisou que havia um vagão-restaurante, mas tarde demais. O serviço já havia acabado e tudo o que conseguimos foi alguns sacos de batatas fritas. Aceitamos a maçã e agradecemos; ela abriu um sorriso:

– Vocês sabiam que meu filho está trabalhando neste trem?

Porém, me adianto: ainda são três horas e estamos saindo de Divisadero. O sol brilha forte no céu azul e faz um calor danado. Os vinte minutos são seguidos à risca: com três silvos ensurdecedores, o trem avisou que estava partindo e que era hora de todos subirem. Retomamos nossos assentos, ainda maravilhados com a paisagem que tínhamos visto – e nós, particularmente, famintos, devido ao motivo acima citado. Aqueles tamales não deram nem para o cheiro.

Mais ou menos uma hora depois, paramos na estação com ares alpinos de Creel. Descobrimos então que não éramos os únicos turistas, porque apenas um casal de japoneses desembarcou aqui, em busca dos lagos, das águas termais e dos cânions onde rios serpenteiam pela região.

Creel é uma cidadezinha encravada na serra dos Tarahumara – uma tribo de índios que habita a região há tempos milenares e conhecidos pela sua capacidade de correr por longos períodos. Para se ter uma ideia, no ritual de agradecimento pela colheita, os tarahumara podem correr quase 60 quilômetros em 24 horas. Na década passada, estes índios ganharam fama mundial com o lançamento do livro “Nascidos para Correr – A Maior Corrida que o Mundo Nunca Viu”; hoje, porém, a habilidade que os fez famosos é explorada pelos carteis, que contratam estes indígenas paupérrimos para carregar a chamada mochila – um sortimento de maconha e de víveres para o mochilero sobreviver durante a caminhada no deserto, que pode chegar a dias: afinal, os índios saem de Chihuahua e transportam a droga até El Paso e cidades próximas. É um percurso de quase 800 quilômetros a pé, sendo que cada mochila pode chegar a pesar vinte quilos, quase todo pelo deserto.

Com o aumento da repressão no outro lado da fronteira, porém, os cânions da serra dos Tarahumara estão repletos de vilarejos miseráveis, em que a maioria dos homens passou algum período nas prisões dos Estados Unidos por tráfico de drogas. Isso, porém, está atrás das montanhas, invisíveis aos olhos dos passageiros naquele trem. Muito menos as plantações de maconha e de papoula, que dominam a área cultivável do Triângulo Dourado – onde os estados de Sinaloa, Sonora e Chihuahua se encontram. Para cuidar destas plantações, os cartéis forçam os índios a trabalhar nelas, muitas vezes por salários que mal os salvam da fome – isso quando não eram simplesmente expulsos de suas terras.

O trem avançou mais meia hora até chegar no ponto mais alto da ferrovia, em San Juanito, a 2.644 metros acima do nível do mar. Aqui, a serra é fechada, densa; percebe-se o esforço necessário para construir a ferrovia, pois começam a aparecer as pontes metálicas sobre rios e vales que, certamente, devem ter custado muitas vidas. Seguimos lentamente, o que permite fotografar com tranquilidade. Os vales cavados pelos rios ao longo das eras são monstruosos e imponentes; é impossível não se surpreender com a amplitude das montanhas e a imensidão do horizonte que se estende diante da janela do trem. Com essa geografia e uma pobreza intensa, não é de surpreender que o tráfico de drogas esteja encastelado pela região.

No entanto, até mesmo a beleza mais serena cobra seu preço e o cansaço nos atinge de uma vez. Culpe a inanição – naquele momento, quase cinco horas da tarde, sentíamos uma fome abissal – ou culpe a longa duração da viagem, estávamos acabados. Olhamos ao redor e vimos que os demais passageiros também estavam prostrados, em silêncio, os olhos vidrados na janela como que acelerando o trem. A escuridão que começava a cair sobre o vagão também ajudava a piorar a sensação, com o sol se pondo atrás das montanhas. Somente a senhora estava ainda ativa, tentando encontrar ouvidos amigos para a notícia que ela tinha a dar: seu filho estava trabalhando naquele trem.

Ao atravessar o vale dos Tamahuara, o deserto volta a dominar a paisagem. A vegetação é rala, tudo é plano e as montanhas estão bem ao longe, reluzindo sob o sol em vários tons de marrom. Passamos por várias fazendas e vemos construções triangulares, algumas com três metros de altura, ao lado dos trilhos; são silos para armazenar os grãos. É engraçado que, ao passar por vilarejos e fazendas, não vejamos absolutamente ninguém – é como se todo mundo tivesse fugido daquela região.

Por volta das 19 horas, fizemos nossa última parada antes de Chihuahua, em Cuauhtémoc. A esta altura, estávamos impacientes; os sacos de batata fritas tinham amenizado a fome, mas já estávamos sentados há mais de 12 horas naquele trem. Queríamos chegar logo, tomar um banho, beber uma cerveja e seguir em frente. Mas mesmo correndo em terreno plano, a velocidade do trem continuava a mesma; e com a noite caindo, não podíamos nem mesmo nos entreter com a janela.

Porém, o tédio não dura muito e longo entramos na cidade de Chihuahua. Parece que a cidade vai se formando lentamente pela nossa janela: um posto de gasolina aqui, casinhas ali, um armazém acolá… o trânsito vai se formando e pronto: o trem está passando por um bairro movimentado. Passamos então sob um viaduto e então a cidade já está formada, com suas casas brancas dispostas em ruas paralelas, como se um urbanista com talento de contador tivesse planejado a cidade.

O trem passa por mais casas, hipermercados com estacionamentos gigantes, avenidas com trânsito intenso, algumas árvores e então para na estação central. Desembarcamos, tartamudos e um pouco tortos por ficar sentados durante tanto tempo. Porém, estamos com a alma cheia, porque não há outra maneira de conhecer esta região do México. O El Chepe, apesar de tudo, nos proporcionou uma viagem que repetiríamos – e é quando se admite a possibilidade de refazer uma viagem que sabemos que ela foi inesquecível. E, se você estiver se perguntando pela segurança, saiba que em momento algum tivemos sequer receio de algo ruim fosse nos acontecer.

O site da Ferrovía Mexicana é http://www.chepe.com.mx/. Basta acessar este site para obter todas as informações necessárias para a sua viagem, incluindo hotéis e estações turísticas.

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Eduardo Furtado

Escritor, tradutor e viajante, autor do livro "Nos Trilhos dos Andes".

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