Chihuahua e Ciudad Juárez: indo embora do México
México

Chihuahua e Ciudad Juárez: indo embora do México

Em busca da Margarita original pelo deserto mexicano

Quando o trem nos deixou em Chihuahua, já podíamos sentir o gosto do adeus que em breve daríamos a um dos países que mais gostamos nas Américas. Na verdade, nosso adeus não era só a um país, mas a toda uma cultura com profundas raízes históricas e de subestimada sofisticação.

Chegamos ao nosso hotel já em noite avançada e tomamos uma de nossas últimas cervejas mexicanas. Em breve, não pediríamos mais uma chela, mas beer. Nosso objetivo era cruzar a fronteira mexicana com os Estados Unidos pelo ponto mais difícil – Ciudad Juárez, até recentemente palco de uma sangrenta luta entre cartéis de narcotraficantes.

Cruzar a fronteira pela passagem mais difícil, na Era Trump: esse era nosso real objetivo. Todos lemos a respeito da questão migratória nos Estados Unidos e de como o novo presidente desta fulgurante nação pretende resolver o problema. O que nós queríamos era ver com os nossos próprios olhos (e passaportes) como a questão fronteiriça é realmente tratada (do ponto de vista formal, evidentemente; não temos a menor condição física de tentar atravessar a fronteira ilegalmente e resistir a uma caminhada de 4 dias pelo deserto, fugindo de coiotes, polícia migratória, bandidos…). Mas mais sobre isso no próximo post.

Então, no dia seguinte, resolvemos dar uma volta pelas redondezas, antes de seguirmos caminho. Como esperávamos, Chihuahua não tem muita coisa a oferecer para o turista. Trata-se basicamente de uma cidade industrial, em que as maquilas – imensos galpões industriais onde são montados todos os tipos de produtos para venda nos Estados Unidos – dominam a paisagem e a vida dos chihuahuaenses.

Nosso hotel estava na confluência de duas importantes avenidas da cidade, e escolhemos uma delas – a Avenida Benito Juárez, que era mais arborizada. Seguimos por ela até darmos com uma rodovia, que justamente na intersecção com a avenida em que estávamos se torna outra avenida, a Cristóbal Colón.

Chihuahua Zocalo

Para variar, acordamos tarde, então estávamos caminhando com uma meta – encontrar comida. No entanto, os poucos restaurantes que encontrávamos estavam fechados. Foi quando chegamos à rodovia que entendemos o porquê: há um imenso complexo de restaurantes e bares que ocupa todo o quarteirão da rodovia. É uma coisa realmente gigantesca: em um lado do quarteirão, uma fileira de restaurantes e, uns 200 metros depois, no lado oposto, outra fileira; dos dois outros lados, separados por uns 400 metros, outras duas fileiras de restaurantes com um bar em cada fileira. No meio, estacionamento para não sei quantos carros e lugar para um número muito maior de mesas. E em cima de nós, o sol escaldante do deserto.

Ali tinha tudo o que precisávamos para aplacar nossa já crescente saudade do México: pura comida tradicional, regada à boa cerveja mexicana. Então mergulhamos nos taquitos: de tripas, de frango, de carne de boi… com várias Índio para acompanhar. Não estava gostoso, mas tinha gosto de saudade e matou a nossa fome.

Enquanto comíamos, prestávamos atenção nos comensais ao nosso redor. Era interessante ver como a industrialização relativa de Chihuahua teve o efeito visível de separar as gerações pelas roupas. Os mais velhos continuam com aquela típica roupa do vaquero, que se tornou o estereótipo mexicano: botas de couro pontiagudas, calça jeans, cinto com uma fivela do tamanho de uma mão, camisa quadriculada para dentro da calça e o chapéu de cowboy. Para espantar o sol, aquele Rayban Aviator que cai perfeitamente bem com o bigodón de respeito. Um visual clássico.

Já as gerações mais novas se vestem da maneira como eles acham que os gringos se vestem: camiseta de time de basquete ou futebol americano, tênis gritando cores e calças abaixadas até o meio da bunda. Se o cabra for casado, usará uma camiseta pólo, bermuda khaki e um sapato de camurça. No pulso, ambos usariam um relógio dez vezes maior que o tamanho do pulso. E estariam prestando pouca atenção a tudo ao seu redor, porque o celular seria muito mais importante.

As mulheres da geração ranchera são mais discretas, preferindo roupas mais tênues e clássica. Porém, as da geração mais nova vão fundo na sua dança da sedução, exibindo pernas e decotes de forma consciente, tanto é que sempre ficam ajustando suas saias e suas blusas, enquanto teclam incessantemente em seus celulares.

E nisso se fez tarde, que se fez noite: hora de dormir porque no dia seguinte cedo, pegaríamos o ônibus para a fronteira.

O transporte público nesta parte do México é bem parecido com o dos Estados Unidos: inexistente. Tivemos de pegar um táxi para a rodoviária que, para a nossa surpresa, não era a principal, mas uma pequena construção já à beira da estrada. Precário, mas funciona: compramos uma passagem para a próxima hora e ficamos esperando nos bancos de plástico. Com um pequeno atraso, nosso ônibus chegou e ficamos quatro horas observando a paisagem desértica, até entrarmos em Ciudad Juárez.

Nós não tínhamos grandes planos para a cidade, só uma missão: diz a lenda que foi em um dos bares de Juárez que a mundialmente famosa Margarita foi inventada. Você conhece a história: mulher deslumbrante pede ao barman embasbacado que invente um drinque que a surpreenda. Então o barman, inspirado pela beleza tão próxima dele, e ainda tão distante, vai lá e inventa a bebida perfeita – no caso, uma dose de tequila, suco de limão, um dedinho de licor de laranja e sal. E assim, tal e qual a Rota da Seda e a Rota das Especiarias, o mundo é feito um lugar melhor pelo puro desejo masculino de conquistar uma bela mulher.

O bar em questão é um mito no sul dos Estados Unidos – o Kentucky Club. Estávamos no Panamá, tomando uma cerveja no bar do hotel, quando entabulamos uma conversa com dois americanos, um deles de El Paso, cidade que faz fronteira com Juárez, e o outro não lembro de onde era. Mencionamos que iríamos cruzar a fronteira por ali e a recomendação foi enfática: “não deixem de passar no Kentucky Club!”.

Porém, isso teria de ficar para o dia seguinte, porque Juárez é tão zoada que mesmo na zona hoteleira, onde a maioria dos hotéis está localizada, não nos sentimos confiantes de sair.

Quando amanheceu, resolvemos desbravar a indomável cidade. Juárez não é pequena – o Wikipédia me informa que são mais de 2,6 milhões de habitantes. Assim como Chihuahua, Juárez também é uma cidade repleta de maquilas, que pagam um salário baixíssimo pelo trabalho agoniante de montar produtos eletroeletrônicos horas a fio. O resultado é um comércio deficiente, uma cidade feia e suja, e a violência originada pela falta de perspectivas formais e pelos ganhos ao se juntar aos carteis.

Apesar da cidade ter seus museus, parques, locais para observar a natureza desértica e outras cositas más, a grande maioria do turismo que Juárez atrai é de gringos querendo a combinação de drogas, álcool e mulheres a um preço muito inferior ao que teriam de pagar em casa. Eles se concentram em multidões na Avenida Benito Juárez, que dá nome à cidade – uma rua estreita, colada à ponte entre Estados Unidos e México, repleta de bares, lojas de artigos turísticos e do infame Kentucky Club. A avenida parte do Centro – que não fica no meio da cidade, como em outros lugares, devido ao crescimento da cidade ser possível somente ao sul (ao norte está a fronteira).

O Centro tem a sua igreja, uma bela construção do começo dos anos vinte, e alguns outros bares e restaurantes tentando atrair sua cota de “turistas”. No mais, nada de digno ou interessante de ser mencionado, apesar da região ter passado por um processo de revitalização recentemente.

Se for para descrever Juárez em um termo, esse seria “largada”. A cidade se vê como que abandonada, com seus habitantes mais preocupados em se esquivar dos cartéis e garantir sua sobrevivência, ainda que por um dia, do que cuidar do espaço público por onde transitam. Isso lhe soa familiar?

Ainda assim, há um elemento que fez toda a diferença nos dois dias que passamos em Ciudad Juárez: a simpatia do mexicano. Apesar das notícias negativas e da recomendação do Departamento do Estado dos EUA para que os norte-americanos não vão à cidade, toda atmosfera de medo é dissipada pela disposição natural do mexicano de Juárez em fazer com que os turistas se sintam bem em sua cidade. As pessoas param seus afazeres para prestar qualquer ajuda solicitada porque estão contentes por ver que ainda há gente visitando o lugar.

Caminhamos por todo o centro, sob o sol abafado do deserto e, ao final da tarde, sentamos nas mesinhas do Kentucky Club para cumprir nossa missão: degustar a Margarita onde ela foi criada. E a missão foi cumprida com a galhardia necessária.

Homem tomando margarita no Kentucky Club

O bar é um dos mais antigos da cidade e isso se mostra na sua decoração: parece uma caverna (no México, o termo usado para bar é “antro”. Quando eu disse o que era antro em português, o mexicano fez que sim com a cabeça, dando a entender que este era justamente o motivo pelo qual usavam a palavra para descrever os bares no país). Nas paredes pintadas de preto, estão as fotos de personalidades que deram seus vexames etílicos no bar: John Wayne, Steve McQueen, Elizabeth Taylor e outros que não pudemos reconhecer.

Pela escuridão e pelo clima, preferimos ficar nas mesinhas do lado de fora, separadas da calçada por cercas de vidro. Aí chegaram as primeiras doses, servidas não em taças, mas em copos normais de drinque e sem a borda embebida com sal. A primeira rodada foi dedicada à margarita que todos nós aprendemos a amar – a de limão. A segunda rodada foi dedicada à margarita predileta deste escriba – a de tamarindo. Houve uma terceira e quarta rodadas, mas não lembro do que eram. Se as margaritas eram boas mesmo? Bom, aqui, neste caso específico, nenhum adjetivo cumpre melhor a sua missão do que o número de rodadas que pedimos: cinco. Ou teriam sido seis?

A solução era voltar ao hotel e tentar se recuperar para o dia seguinte. Dormimos como pedras e acordamos ligeiramente ressacudos no dia seguinte – uma proeza, considerando o tanto de margaritas que tomamos. Precisávamos ficar ágeis e ligeiros, porque no dia seguinte enfrentaríamos o temido U.S. Custom and Border Protection com nossos passaportes – securing American borders!

Mais no próximo post. Aguarde!

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Eduardo Furtado

Escritor, tradutor e viajante, autor do livro "Nos Trilhos dos Andes".

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