Estados Unidos

Memphis: cidade de uma rua só

E que rua: Beale Street é apenas o lugar onde o rock nasceu

Como disse uma vez Newton Mendonça, em uma famosa música de Tom Jobim, quem quer todas as notas fica sem nenhuma. Afinal, quanta cidade existe por aí que fala tanto e não diz nada? Melhor é fazer como Memphis, que se resume a uma rua só e inventou o rock’n’roll e, por consequência, Elvis Presley – assim como a fábrica de guitarras Gibson ganhou sua reputação aqui. Sim, estamos falando da Beale Street.

Beale Street à noite com carro antigo estaciodado

Mas assim como o “Samba de uma Nota Só” não tem uma nota só (são duas, caso você se pergunte: mi e lá), pela Beale Street é possível mergulhar na cultura negra do sul dos Estados Unidos. Memphis foi a casa da Stax, talvez a única gravadora a rivalizar com a Motown de Detroit pela primazia na música negra nos anos 60. E, a cinco quadras da Beale Street, na despretensiosa Huling Ave., está o Lorraine Motel, onde Martin Luther King foi assassinado, em 1968.

Chegamos em Memphis de trem e desembarcamos em uma plataforma improvisada, já que a estação ferroviária da cidade estava fechada para reforma. Nosso hotel não era muito longe da estação, mas ainda assim o taxista que nos levou conseguiu a proeza de nos cobrar quase 30 dólares pela corrida. Memphis não é uma cidade para iniciantes.

Jogamos as mochilas no quarto e começamos a desbravar a cidade… sentando diretamente no parque que havia em frente ao nosso hotel. Não eram ainda nem oito horas da manhã e queríamos começar o dia sem pressa. Algum tempo depois, chegaram dois mendigos para conversar conosco.

Eles eram bem mais velhos do que nós, na casa dos cinquenta anos (embora parecessem ter setenta). Um deles tinha os loiros cabelos longos e uma expressão resignada; ele falava pouco. O outro era moreno, os cabelos curtos e algumas tatuagens, e ele falava mais. Depois das perguntas habituais – de onde éramos e o que queríamos fazer em Memphis – começamos a falar sobre a cidade.

Eu perguntei se eles sabiam o que era aquela construção em forma de disco voador, que estava sob o topo de um prédio alto que dominava todo o horizonte da cidade. Eles responderam que era um antigo restaurante giratório, construído nos anos 60, juntamente com o edifício – que, por sinal, era o mais alto de Memphis.

Não foi só a forma da construção e a altura que chamaram a minha atenção, mas sim o seu estado atual: o lugar estava completamente destruído, uma verdadeira cicatriz no céu de Memphis. Os mendigos nos contaram então que a economia da cidade estava destruída e que não havia empregos. Isso se refletia na própria história daqueles dois: eles não eram da cidade, mas tinham vindo à Memphis em busca de empregos que não encontraram. Perguntei então porque continuavam na cidade, e eles responderam que lá eram bem tratados e que não queriam voltar para onde nasceram, que eram cidades bem menores mais ao sul dos Estados Unidos.

Demos dez dólares e uns cigarros aos dois, que nos agradeceram efusivamente, e cada dupla tomou o seu caminho: nós na direção da Beale Street, enquanto eles foram comprar as suas primeiras doses de álcool do dia.

Começamos nosso périplo pela Main Street, uma rua para pedestres onde um bonde deveria passar no meio, mas o serviço estava suspenso. Achamos um mapa entre as árvores que margeiam a rua e estávamos traçando nosso roteiro quando um bêbado se aproximou.

– Good morning, happy people! – ele nos cumprimentou, espantando nosso sono.

Ficamos olhando para o sujeito – meia idade, negro, as roupas coloridas e um ar jovial. Aquele cara poderia ser carioca.

– O que vocês estão fazendo na rua tão cedo?

Explicamos que tínhamos acabado de chegar na cidade e estávamos procurando a Beale Street. Ele então começou a contar causos da cidade, e tirou de uma sacola um papel e um lápis. Por uma pequena ajuda, o sujeito disse, ele poderia fazer um retrato de nós dois. Declinamos, traumatizados pela experiência de Cartagena, mas demos uns trocados e ele foi embora feliz, provavelmente encontrar os outros dois mendigos, em busca da sua dose.

Main Street em Memphis
Eis a Main Street de Memphis, onde corre um bonde que está em reforma

Aqueles mendigos eram o retrato de Memphis, um lugar onde a festa nunca termina. Desde sua fundação, em 1826, a cidade sempre foi tolerante com a jogatina, a prostituição e o álcool. Por muito tempo, Memphis não teve cadeia; a polícia levava o criminoso ao juiz, que estipulava o valor da multa e o prazo do pagamento. Se o indivíduo não pagasse, ele poderia ser extraditado da cidade, mas era mais provável que ele fosse linchado, ainda mais se fosse negro.

Seguimos pela Main Street até entrarmos na Beale Street. Foi aqui que nasceu o rock’n’roll; foi aqui que lendas da música americana no século 20, como B.B. King e John Lee Hooker, deram seus primeiros passos para a fama. E, naquela ensolarada manhã de segunda-feira, a Beale Street que tínhamos sob nossos pés era apenas uma rua de ressaca, com copos e garrafas jogados pelo chão.

A Beale Street que entrou para a história da música não é mais a Beale Street por onde andávamos. Agora, há apenas duas quadras da lendária rua sendo ocupadas por bares e casas de show; antes, eram mais de cinco, em sua maioria de propriedade de um sujeito excêntrico – Robert Church Sr., um dos primeiros milionários negros a viver no Sul racista dos EUA.

Durante a epidemia de febre amarela que atingiu a cidade de 1873 a 1879, Memphis perdeu 80% de sua população – quem não morreu, fugiu para lugares mais seguros. No entanto, quem ficou aproveitou para expandir suas posses, como foi o caso de Church. Ele usou todo o dinheiro que ganhara com jogos e prostituição para comprar terrenos justamente na Beale Street. Quando a cidade se recuperou da epidemia, Beale Street estava pronta para se converter no principal centro do vício em Memphis.

Hoje, porém, a Beale Street é uma tímida lembrança do seu auge. Depois de passar os dois quarteirões cheios de bares e casas de show, a Beale Street se transforma em um deserto. De um lado da via, terrenos baldios; do outro, um parque, que agora leva o nome de Robert Church Jr., aberto pela família Church como o lugar de congregação dos negros no começo do século 20. Depois disso, a Beale Street é apenas uma imensidão vazia.

O declínio de Beale Street nada tem a ver com uma purificação da sociedade americana; a queda da rua mais famosa de Memphis tem um pouco a ver com o poderio da rua mais poderosa de Nova York e com um evento que ocorreu em 1968, a poucas quadras dali: o assassinato de Martin Luther King, que gerou uma convulsão social que fez Memphis arder em chamas por cinco dias. Mais sobre isso adiante.

Voltamos à Main Street, em busca de comida. Achamos um restaurante que vendia “black wings” – um dos melhores nomes para comida que já vi. A iguaria consiste de 6 ou 12 asas de frango assadas na brasa e cobertas com um molho escuro, meio picante e altamente grudento. É a melhor comida de Memphis, como descobriríamos depois.

Uma volta pela Main Street revela as dores de Memphis. Saiba que foi nesta cidade que o supermercado como o conhecemos foi inventado; era o Piggly-Wiggly, fundado em 1916 e que existe ainda hoje, embora não esteja mais sediado na cidade. Outra invenção de Memphis é a FedEx, fundada por Fred Smith depois de trabalhar nos estúdios de música que ainda fervilham na cidade. A sede da FedEx continua em Memphis.



No entanto, a cidade nunca se recuperou dos conflitos raciais que foram deflagrados após o assassinato de King no motel Lorraine, a poucas quadras de Beale Street. King já havia capturado a imaginação dos negros ao anunciar que ele tivera um sonho – primeiro em Detroit, depois em Washington, de onde todo o mundo soube.

King estava em Memphis para apoiar a greve dos lixeiros da cidade, que começou de forma pacífica, mas alimentada por questões raciais, logo se tornou uma convulsão social. Os tumultos duraram uma semana e resultaram em incêndios e saques no centro da cidade. Com isso, a cidade convocou 4 mil soldados da Guarda Nacional para tentar restaurar a ordem. Após a chegada dos militares, os lixeiros voltaram às ruas carregando cartazes de protesto – por isso você verá tantos grafites com o slogan “I Am a Man”: eles não eram lixo, eram gente.

King estivera na cidade antes, quando os lixeiros começaram a greve, na esperança de aproveitar a paralisação para ganhar atenção ao seu programa contra a pobreza. No entanto, incapaz de conter os ânimos, King foi embora depois que uma manifestação terminara em violência. Ele estava em dúvida se deveria voltar à Memphis; mas voltou, proferiu seu discurso “Eu estive no topo da montanha” (I’ve Been to the Mountaintop) e, na noite seguinte, foi morto por um tiro de espingarda disparado por James Earl Ray. A greve terminaria naquele momento, sendo substituída por um tumulto generalizado que acentuou o declínio econômico da cidade.

Hotel Lorraine em Memphis
Hotel Lorraine em Memphis, onde MLK foi baleado.

No final dos anos 90, o prédio foi salvo da ruína por uma associação local de negros, que conseguiu fundos não só para comprar o prédio, mas para reconstruir completamente a cena onde King foi abatido. Isso inclui reformar o prédio, comprar um carro da época que estava estacionado diante do motel e manter uma coroa de flores diante da porta do quarto 103. Para manter o motel Lorraine imaculado, agora funciona no local o Museu Nacional pelos Direitos Civis (National Civil Rights Museum), que cobra pela entrada.

De dia, Memphis é aquele seu tio que, nas festas de Ano Novo na praia, passa o dia inteiro dormindo. Ele acorda ao cair da noite e está à toda pilha, pronto para comer (pouco) e beber (muito) até amanhecer.

Nós aprendemos o ritmo da cidade e saímos ao por do sol, sentindo nas calçadas a cidade despertar para a noite que se aproxima. Entramos no Peacock Hotel, o mais luxuoso da cidade, onde o lobby abriga uma fonte onde patos nadam placidamente entre os comensais do restaurante do hotel. Depois, uma parada para forrar o estômago – nada melhor que o gumbo para isso: um mexido de frutos do mar, frango e carne com arroz, típico do sul dos Estados Unidos, que proporciona o cimento necessário para o que vem a seguir. Não é aquela delícia, mas serve ao propósito.

Estávamos prontos para a Beale Street. Compramos nossas cervejas (não esqueça seu passaporte; sem ele, não lhe venderão álcool porque precisam saber a sua idade não pela aparência, mas pelo documento) e descemos a rua vendo os carrões estacionados, os capôs abertos para mostrar que são genuínos (aqui, não é preciso documento para comprovar que os motores são originais). Detroit e Memphis não se cruzam só na música.

Então a noite começa a amadurecer. O som do rock e do blues ganha as calçadas e se misturam; os carros partem lentamente, dando lugar às pessoas em busca de mais álcool, música e diversão. Os bares ficam cheios e as pessoas extravasam para as calçadas: nativos de Memphis, turistas internos, bastante estrangeiros, todos bebendo e rindo e se divertindo até onde os costumes do nosso tempo permitem.

Quando vamos embora, quase quatro horas da manhã, Beale Street ainda está à toda, pela primeira vez dando asas para a imaginação conceber como era a cena em seu auge.

A ressaca pode ficar para o próximo trem: é preciso conhecer os nomes que puseram Memphis no mapa sociocultural do século 20. Vamos conhecer as gravadoras Stax e Sun Records – mas isso fica para os próximos posts.




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Eduardo Furtado

Escritor, tradutor e viajante, autor do livro "Nos Trilhos dos Andes".

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