Detroit: aqui nasceu o século 20
Estados Unidos

Detroit: aqui nasceu o século 20

A cidade inaugurou o século 21 com seu trágico declínio urbano, mas Detroit sobreviverá para contar mais esta história.

Detroit

Berço da produção em massa, da classe média, dos movimentos raciais e do punk: é impossível contar a história do século 20 sem mencionar o impacto de Detroit na sociedade contemporânea.

Hoje, Detroit só é notícia devido ao seu declínio urbano – tão longo e tão profundo que até mesmo o século 20 fugiu de lá. A classe média começou sua disparada rumo aos subúrbios ainda na década de 60; a Motown, gravadora que colocou Detroit no mapa musical, se mudou para Los Angeles em 1972. A Ford, onde a linha de produção foi inventada, seguiu logo depois para Dearborn – um subúrbio. E o punk foi sequestrado pelos ingleses em 1976, para nunca mais voltar.

Esse abandono de Detroit pelo mundo se revela até mesmo nos detalhes mais pequenos. Em outras cidades, quando os locais nos perguntavam qual cidade havíamos gostado mais em nosso périplo, sempre reagiam com surpresa quando ouviam a resposta: Detroit.

Ou então quando nos registramos em nosso hotel, administrado pela mesma família há quarenta anos. A senhora que estava na recepção não conseguia encontrar nossa reserva simplesmente porque lhe era impossível digitar nossos nomes corretamente. Até que ela desistiu e nos perguntou como fizemos a reserva; mencionamos que havia sido por um site muito famoso na América Latina, e ela nos respondeu: “Não conheço, é dos Estados Unidos?”. Fiquei com a impressão de que éramos um dos raros estrangeiros a se hospedar naquele hotel.

Enquanto estávamos nisso, a TV nos informou que, em instantes, Aretha Franklin iria se apresentar no parque à beira do rio Detroit – uns dois quilômetros de distância de nosso hotel. Ela nasceu em Memphis, mas foi em Detroit que entrou para a história da música pop como a diva do Soul. Era uma atração obrigatória, mas a fila atrás de nós crescia e a senhora decidiu nos deixar de lado para atender as outras pessoas. Quando o sobrinho dela veio nos salvar, quase meia hora depois, já era muito tarde: Aretha Franklin já estava no meio de sua apresentação para um parque lotado. Até chegarmos lá, a voz mais marcante da Motown já teria se retirado do palco.

Não foi um bom sinal; porém, depois de instalados, decidimos comer alguma coisa. Achamos um restaurante bem próximo ao hotel e uma simpática garçonete veio nos atender. Curiosa com o nosso sotaque, ela se surpreende ao saber de onde somos e nos pergunta o que viemos fazer em Detroit. Respondo que queremos visitar o legado musical da cidade; como o museu da Motown, o museu de música eletrônica do coletivo Underground Resistance e o UFO Factory, cujo dono é o líder de uma das bandas que mais ouvi na adolescência, His Name Is Alive.



Com isso ela se empolga e revela que namorou o baixista da banda por muito tempo. Mas ela se apressa em dizer que agora não faz mais parte do showbiz de Detroit: ela está casada, com um filho e mora em Ferndale, um dos subúrbios mais afluentes de Michigan (e onde apenas 1% da população é negra).

Detroit é a metrópole americana com maior proporção de negros: 80%, segundo o censo de 2010. Fundada como polo de distribuição das peles de castor, que estavam na moda na Inglaterra ao final do século 17 (com essas peles, eles faziam aqueles chapéus estilo Daniel Boone), Detroit se tornaria, no século 19, a estação final do Underground Railway – o inteligente esquema de fuga dos escravos do sul dos Estados Unidos para o Canadá.

Nem todos, porém, conseguiam atravessar a fronteira e, por isso, se estabeleceram na cidade. O fluxo migratório aumentou no século 20, com a industrialização, que oferecia empregos com melhor salário do que a agricultura. Com a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial, a migração do sul para o norte atingiu seu ápice, já que os esforços de guerra aproveitaram o imenso parque industrial de Detroit para produzir tanques, munição e aviões e necessitavam da maior quantidade de operários possível. Foi quando começaram os conflitos raciais, como o de 1943, que destruiu grande parte do centro da cidade.

Ao mesmo tempo em que os negros chegavam, os brancos saíam para os subúrbios, aproveitando a extensa rede de vias expressas construídas durante os anos 40 e 50. A deserção foi lenta à princípio, mas aumentou significativamente após o distúrbio de 1967. Quando as fábricas de automóveis, o pulmão econômico da economia local, começaram a fechar devido à invasão japonesa, o fim de Detroit estava decretado.

É fácil ver como o êxodo populacional transfigurou Detroit: basta sair do centro. Basicamente, o centro vai das margens do rio, onde está a estátua “Spirit of Detroit”, até a Grand Avenue, pela Woodward – a avenida do VLT. Ao descer no ponto final, basta caminhar até a Euclid St para ver a desolação: ruas completamente desertas, com algumas casas destruídas em meio ao vazio como se fossem bocas banguelas com alguns dentes cariados.

Estátua do espírito de Detroit
O Espírito de Detroit

Em nosso segundo dia na cidade, fomos à esquina da Rosa Parks Avenue com Clairmount Ave, onde, na noite de 23 de julho de 1967, a polícia interrompeu uma reunião de veteranos negros da guerra da Coreia com a sua brutalidade habitual. O que se seguiu foram cinco dias de caos e destruição, com o saldo de 43 mortos, 342 feridos e quase 1.400 prédios saqueados ou incendiados.

Nada mais está de pé por lá. Até mesmo o nome Rosa Parks Avenue é uma alteração: em 1967, chamava-se 12th Street. O nome foi alterado quando a mulher que se recusou a dar seu assento a um homem branco em um ônibus em Montgomery, Alabama, e por isso foi presa em 1955, dando origem a imensos protestos contra as leis do sul dos Estados Unidos, morreu cinquenta anos depois, em Detroit.

Nem mesmo o bar onde os veteranos celebravam existe mais. Em seu lugar, a cidade está finalizando um parque.

Resolvemos voltar à pé para a Grand Boulevard – queríamos conferir dois arranha-céus de Detroit: o Cadillac Place e o Fisher Building. Para isso, seguimos ao sul pela Rosa Parks Avenue. A sensação era a de que estávamos no limite da cidade, onde as construções rareiam e o mato toma conta. Decidimos então entrar em uma rua, a Euclid; parecia que Detroit fora bombardeada durante alguma guerra. Casas abandonadas, em ruínas ou simplesmente queimadas; onde havia casas, agora havia gramados estendendo-se por metros e mais metros, com algumas casas ainda habitadas aqui e acolá. Na rua, com a calçada faltando em vários trechos, ninguém andava – apenas nós.

Aos poucos fomos sentindo o clima lúgubre do lugar, dada a pobreza e a desolação daquela área. Eu me sentia constrangido ao tirar fotos; parecia uma ofensa aos moradores da cidade. Sentados nas varandas de suas casas, porém, alguns deles nos cumprimentavam ao nos ver passar. Uns nos perguntaram de onde éramos; ao saber que éramos estrangeiros, abriam um sorriso como que agradecendo por termos saído da rota estabelecida do turismo para visitar a cidade. Decidimos então guardar a máquina fotográfica; nenhuma imagem faria justiça à gente-finice dos detroiters.

Quando chegamos na John C. Lodge Freeway, pudemos ver uma tempestade de proporções épicas se formando já em cima de nós. Atravessamos a ponte sobre a pista expressa e seguimos pela Euclid, mas já correndo. Porém, nosso esforço foi à toa: a chuva nos alcançou já na esquina com a 2nd Avenue. Vimos uma marquise em um prédio, dois quarteirões à direita: corremos até lá e nos meros minutos que até chegar ao abrigo, estávamos completamente encharcados.

Atrás de nós havia uma vitrine, o que chamou nossa atenção. Eram livros e revistas sobre a questão racial – estávamos na filial de Detroit da NAACP, ou National Association for the Advancement of Coloured People. Fundada em 1909, após um violento linchamento em Springfield, capital do estado de Illinois, um ano antes, a NAACP ganhou notoriedade como a principal entidade de defesa da igualdade social e teve papel fundamental ao organizar a marcha de Washington, em 1963, onde Martin Luther King declarou ter tido um sonho.

Um dos discursos mais celebrados de todo o século 20, sua primeira declaração pública foi em Detroit. King fora convidado a discursar na cidade pelo Reverendo Clarence La Vaughn Franklin – pai de Aretha. Chamada “Great Walk to Freedom”, mais de cem mil pessoas acompanharam King, o Reverendo Franklin, líderes sindicalistas e políticos em uma passeata pela Woodward Avenue até atingirem o Cobo Center, já às margens do rio Detroit. Lá, King encerrou seu discurso de 35 minutos com uma série de frases começando com “I have a dream…”, dois meses antes de Washington.

À essa altura, a chuva já passara. Retomamos nosso caminho, seguindo pela Euclid até a Woodward e então virando à direita, onde se localizava o Motel Algiers, cenário de um dos episódios mais marcantes da rebelião de 1967. Em uma noite, durante os distúrbios, três policiais brancos invadem o motel e, por horas a fio durante a noite, torturam sete hóspedes, dos quais apenas duas mulheres eram brancas, terminando por matar três negros. Ao invés de se dissolver como apenas mais um triste caso de violência dentre os cinco dias que marcaram a revolta, o episódio ganhou relevância histórica porque os três policiais foram absolvidos pela Justiça. O filme “Detroit”, de Kathleen Bigelow, consegue captar com precisão a injustiça e a tensão daqueles momentos.

Quando chegamos ao local, entre a Woodward e Virginia Park, vimos que agora há um pequeno parque e, ao fundo, um condomínio de pequenos prédios. Não há uma placa, ou qualquer indicação, de que ocorreu naquele lugar um pedaço chocante da história dos movimentos raciais nos Estados Unidos.

Porém, o céu voltara a armar outra tempestade. O trecho da Woodward que começa após a Grand Boulevard é um enorme descampado, sem prédios ou árvores – apenas terrenos baldios, com construções esparsas entre si. Tomamos a maior chuva do hemisfério Norte, até chegarmos no terminal do VLT, na Woodward com a Grand Boulevard. Voltamos para o hotel completamente encharcados – pela segunda vez. A arquitetura teria de ficar para o dia seguinte.

E assim fizemos: um dia inteiramente dedicado à arquitetura de Detroit. É muito fácil ficar embasbacado com os arranha-céus de Nova York ou de Chicago, mas a verdade é que, em Detroit, a arquitetura dos edifícios foi elevada quase à altura de arte.

Arte: não há melhor definição para conceber o que é o Fisher Building, localizado na Grand Boulevard. Dubai pode ter os edifícios mais altos do mundo em formatos que desafiem a gravidade; Nova York pode ter os prédios mais famosos do cinema; está tudo muito bem. Porém, o que só Detroit tem, e nenhuma outra cidade mais pode ter, é o Fischer Building, porque assim como toda obra de arte relevante, este edifício é uma declaração de princípios.

O primeiro princípio é o de que a aparência do edifício pertence à cidade. Serão os habitantes da cidade os obrigados a viver com o edifício; portanto, é necessário que arquiteto e o dono do prédio pensem no legado que deixarão à cidade com a sua construção. Essa é uma questão esquecida, por exemplo, no edifício Tomie Ohtake, em São Paulo; ninguém quer reflexos vermelhos pela sua rua nas tardes de sol.

O Fisher Building é tão bonito que é considerado “a maior obra de arte em Detroit”. Inaugurado em 1 de setembro de 1928, o prédio saiu da prancheta de Alfred Kahn, que projetou a maioria dos edifícios da cidade. Reza a lenda que os irmãos Fischer não estabeleceram um limite de custos para Kahn; ao contrário, pediram que ele construísse a “mais bela construção do mundo”. Eles podiam: foram os inventores da carroceria, um item tão básico nos carros de hoje que pensamos fazer parte da invenção original. Pois bem: não eram. Foram os irmãos Fischer os primeiros a conceber o automóvel como um produto de uso em qualquer clima. Sua fábrica foi de vento a popa, a ponto de ser vendida para a GM por US$ 208 milhões, em 1925 (a valores de hoje, o equivalente a US$ 2,5 bilhões).

Kahn não deixou por menos. Como se não bastasse o detalhado exterior, ele projetou um interior que tem a ambição de rivalizar com a Capela Sistina. Suas galerias são abobadadas, com o teto decorado com desenhos que celebram a indústria de Detroit em pastilhas. O pé direito do térreo é alto, equivalente a três andares. Por fim, pilastras iluminadas completam o deslumbrante interior concebido pelo arquiteto.

Os irmãos Fischer voltariam à carga, desta vez construindo o New Center Building, depois renomeado Alfred Kahn, já que foi o mesmo Kahn quem o projetou. Localizado logo atrás do Fisher Building, na 2nd Avenue com Lothrop St., ambos edifícios são conectados por uma galeria subterrânea.

De volta à Grand Boulevard, a apenas alguns metros do Fisher Building, encontramos o Cadillac Place, antiga sede mundial da GM. Para este cliente, Kahn imaginou um edifício que congelasse no tempo a dança dos pistões dentro do motor de um automóvel. Batizado de Cadillac não só para homenagear o carro, mas também o fundador de Detroit (o francês Antoine Laumet de la Mothe Cadillac, que fundou a cidade em 1701), o prédio é suntuoso e imponente: uma enorme construção retangular de concreto armado, ocupando dois quarteirões da Grand Boulevard.

Antiga sede da General Motors

Decidimos então pegar novamente o VLT para explorar o centro da cidade. Descemos no Campus Martius, uma praça onde começa a Woodward Avenue, e fomos em busca do The Guardian. Outra peça maravilhosa do Art Déco que caracteriza o Fisher Building, o exterior do The Guardian é facilmente identificável devido ao mosaico com os pequenos índios, em seus frisos laterais. Se o Fisher Building era a “Catedral do Comércio”, o The Guardian deveria ser a “Catedral das Finanças”, já que seu cliente era um banco. Isso ajuda a entender porque Alfred Kahn não assinou este prédio – ele era o arquiteto exclusivo da indústria automobilística.

O The Guardian foi projetado por Wirt C. Rowland, que concebeu uma estrutura de aço recoberta por 1,8 milhão de tijolos que ostentam um tom único de laranja – sim, o edifício é laranja. Quando foi inaugurado, em 2 de agosto de 1929, o The Guardian era a maior construção do mundo em alvenaria.

O interior do prédio não é menos exclusivo: suas pilastras são recobertas com mármore negro, importado da Bélgica, e foram as últimas pedras retiradas da mina. O térreo é vermelho, cortesia do mármore proveniente da Numídia, uma região onde hoje é a Argélia. Como não havia mais nenhuma mina no mundo produzindo mármore desta cor, Rowland reabriu uma mina fechada há trinta anos naquele país especialmente para retirar o mármore necessário para realizar seu projeto. Não se trata apenas de construir prédios; em Detroit, trata-se de ter obras de arte a céu aberto.

O resto do dia foi passado perambulando pelo centro da cidade, com uma visita à atual sede da GM, um edifício tubular de vidro plantado, juntamente com outros três prédios similares, mas de altura menor, junto à via de pedestres que margeia o rio Detroit.

Nova sede da GM, em Detroit
Nova sede da GM, em Detroit

Investigando o lado musical de Detroit

Ainda que a manhã seguinte tivesse nascido de mau humor, resolvemos enfrentar os céus escuros porque ainda havia uma obsessão a ser resolvida: a história musical de Detroit. Tínhamos alguns endereços na mão e decidimos começar pela Grand Boulevard.

Motown, punk, música eletrônica; não há nenhum elemento do pop atual que não tenha sido tocado pelas hábeis mãos de Detroit. E, no entanto, todos estes elementos nasceram do mesmo átomo – o blues.

É claro que o ambiente industrial de Detroit teve influência significativa na música gerada pela cidade. Berry Gordy, o inventor da Motown (que é, por si só, um acrônimo de MOtor TOWN), trabalhou por um curto período na fábrica da Ford em River Rouge. Foi de lá que aprendeu a trabalhar como uma linha de produção, maximizando o potencial criativo de sua equipe de compositores para criar sucessos em toneladas. Não à toa, Gordy pusera um letreiro na frente do estúdio da Motown, na Grand Boulevard, onde se lia “Hitsville USA”.

A árvore genealógica do punk começa em Detroit, mais especificamente com uma banda chamada MC5 (MC é a sigla para Motor City), em 1964. Liderados por Wayne Kramer, o grupo distorceria o blues de tal forma que seria impossível imaginar Bo Diddley tocando junto. O MC5 abriria as portas para o surgimento, em 1969, dos The Stooges, com o energético Iggy Pop nos vocais. Antes disso, Pop (née James Osterberg) tocava baterias em grupos de blues pela cidade.

Em entrevista à revista GQ, Iggy Pop relembrou uma visita à fábrica da Ford em Detroit, quando ele era uma criança.

“Fui conduzido por uma destas passarelas que ficam sobre os equipamentos, vendo como uma placa de ferro era solta de uma grande altura e despencava, de forma bem organizada, por uma canaleta até se chocar contra um molde, lá embaixo, formando algo que começava a se parecer com uma porta. Mas era o som que aquilo fazia que teve um grande efeito sobre mim”.

Nossa primeira meta era o museu da Motown, onde era o estúdio da gravadora. Chegamos lá e vimos um ônibus repleto de turistas estacionar em frente. Corremos desesperados até a bilheteria e, felizes porque ultrapassamos o grupo de turistas, pedimos nossos ingressos. Nada feito: só com reserva, com três dias de antecedência. Não adiantou dizer que íamos embora no dia seguinte; não pudemos entrar. Incrédulos, vimos o grupo de turistas sumir no interior do museu, completamente ignorantes de minha frustração.

O jeito era tentar o segundo endereço: o quartel-general do coletivo de música eletrônica Underground Resistance, talvez um dos mais representativos do som de Detroit. Tínhamos anotado: East Grand Boulevard, 3000. Isso era quase um quilômetro em linha reta do museu da Motown. Levados pelo vento forte, começamos a andar. No entanto, não havia meio de encontrar o número 3000; depois de cruzar a Woodward, a Grand Boulevard se resume a uma via expressa, cheia de terrenos baldios de cada lado.

Havia um prédio com um cara de bermudas na escada; perguntamos se ele sabia onde era o número 3000. “É aqui”, ele nos informa.

“Viemos conhecer o Underground Resistance”, explico.

O prédio da Underground Resistance
Eis o prédio! Lá em cima a placa de Lavanderia.

Ele se levanta e abre a porta para nós. Nisso, sai outro cara, carregando uma sacola de discos. Eles trocam algumas palavras e o cara cheio de discos vai embora. Era “Mad” Mike Banks, um dos nomes mais influentes do techno e fundador do Underground Resistance. Nosso anfitrião nos leva para dentro e fazemos a apresentação: ele é Raphael Merriweathers, or Ray 7, no jargão UR.

Entramos em uma sala onde estão dispostos os primeiros instrumentos que o coletivo usou em seus discos, ainda nos anos 80: a série de sintetizadores e baterias eletrônicas TR 303, 808 e 909, que formam a pedra angular do techno e agora são apenas isso – peças de um museu chamado Exhibit 3000.

Atrás de uma parede de vidro, está a prensa de discos fabricada em 1932 e usada por Ron Murphy para cortar os discos não só da UR, mas também da Motown – como que unindo passado e futuro, as duas pontas da Grand Boulevard.

O museu também abriga os primeiros discos distribuídos pela Submerge, o braço de comercialização do UR. Um mapa mostra o alcance da influência de Detroit sobre o mundo: não há virtualmente um país no globo onde não haja uma pessoa que tenha comprado discos pela Submerge.

Rafael nos deixa sozinhos para atender um telefone e somos então convidados a descer para o porão, onde funciona a loja “Somewhere in Detroit”. As prateleiras da loja contêm o passado, o presente e o futuro da música eletrônica, ao oferecer não só os discos da UR, mas também de outros DJs e grupos de Detroit.

A reverência com que o UR é tratado aparece nas paredes, onde os visitantes são convidados a escrever algo para a posteridade. Escrevemos algo parecido, enquanto conversamos com John Collins, um dos nomes mais famosos do UR e que estava cuidando da loja naquele dia.

John Collins no porão da UR
John Collins no porão da UR

“Por que Detroit?”, eu pergunto, enquanto faço a lista mentalmente: Motown, MC5, The Stooges, depois Iggy Pop, White Stripes, Eminem, Bill Haley, Sufjan Stevens, Suzi Quatro, Electric Six, Ray Parker Jr…

“Foi Detroit, mas poderia ser qualquer lugar”, Collins me responde, dando de ombros. “Não há absolutamente nada que faça daqui um lugar mais especial que os outros”, completa.

Eu sugiro que será a arte que fará Detroit renascer das cinzas, mas Collins é mais ácido. “É possível, mas ainda não teremos resolvido uma das questões fundamentais de se viver em Detroit, que é o abismo entre brancos e negros”, ele articula.

Saímos do museu animados com a conversa e com a experiência e depois lemos que tivemos muita sorte: visitar o museu e entrar na loja requer agendamento por email. Outra atualização: aparentemente Mad Mike anunciou planos de mudar o UR de endereço (mas não de cidade), em agosto de 2017. O novo endereço não foi divulgado ainda, mas envie um email para [email protected] para verificar o estado das coisas, caso alguém esteja planejando conhecer a Exhibit 3000.

Resolvemos depois ir até outro ponto significativo da música em Detroit: a loja Third Man Records, propriedade de um certo Jack White, que uma vez tocou em uma banda chamada White Stripes.

Descemos a Cass Avenue quase que inteira, até chegarmos à loja, que fica uma rua perpendicular. O problema é que já eram quase 17 horas e a loja estava fechando. Percorremos as prateleiras e eu fiquei tão tentado em comprar algumas raridades que tive de ir embora correndo. Como levar tantos discos na mochila por uma volta ao mundo?

Decidimos fechar o dia e Detroit com uma visita ao UFO Factory. Misto de casa de shows e galeria de arte, o lugar pertence a Warren Defever, artista plástico e fundador de uma das bandas de minha adolescência, His Name Is Alive.

UFO Factory e a última noite em Detroit

Pegamos nosso mapa e decidimos andar até lá. Para isso, tínhamos de dar a volta em um cassino, o Motor City. Pelo o que havíamos entendido, o lugar ficava logo depois de contornar o cassino. Respiramos fundo e fomos em frente. Seguimos pela Cass até a Temple St., e aí viramos à direita até o Motor City Casino, que fica justamente na esquina com a Trumbull Avenue, onde se localiza o UFO Factory.

Isso era muito claro no mapa, mas andando a coisa é completamente diferente. As freeways que cortam Detroit estão alguns metros abaixo do nível da rua, nesta parte da cidade. Nem todas as ruas acima das freeways têm pontes permitindo que o pedestre cruze para o outro lado; na verdade, a maioria das ruas acaba na freeway. Isso fez com que nos perdêssemos consideravelmente.

Depois de várias tentativas e erro (essa tem ponte? Não. OK, vamos para a próxima), achamos a Temple Street, que atravessa a John C Lodge Freeway bem na altura do Motor City Casino. O cassino era a nossa referência, porque a Trumbull Ave., onde está o UFO Factory, passa justamente atrás dele.

Caminhamos por quase uma hora e, com o sol já se pondo, chegamos à Trumbull. Porém, deveríamos virar à esquerda, mas o que fizemos foi seguir à direita.

Em nossa defesa, posso argumentar que estávamos estarrecidos com a paisagem urbana durante a nossa caminhada. Grandes gramados, onde haviam casas que foram derrubadas pela cidade, e casas abandonadas, destruídas pelo tempo ou pelo fogo – nos anos 80, era comum incendiar casas na noite de 30 de outubro – a noite do demônio.

Uma casa em ruínas em Detroit
Uma das casas de Detroit

Quando entramos na Trumbull, a impressão que nos deu era de que o abandono era tão intenso e tão prolongado que a natureza já estava recuperando o terreno que havia perdido para a cidade. E não estávamos a nem um quilômetro da sede mundial da GM.

Havíamos cruzado a Grand River Ave. sem sequer suspeitar de que estávamos na direção errada. Ainda estávamos na Trumbull, agora em uma parte com mais casas. Foi quando decidimos perguntar para um sujeito tomando vinho em seu alpendre: “Estamos procurando um lugar chamado UFO Factory, sabe onde fica?”

Ele pensa e se dá conta de nosso sotaque: somos do Brasil, respondemos. Isso parece iluminar seus olhos e ele agradece imensamente pela visita. Um pouco encabulados, contamos que estamos adorando a cidade e ele parece ficar ainda mais feliz. Depois disso, ele volta a pensar e conclui: “O UFO Factory fica para lá” – e aponta a direção para onde estávamos indo.

Seguimos em frente por mais um bom tempo e foi quando eu comecei a reconhecer os prédios que eu vira antes, ao longe, descendo pela Cass, que eu me dei conta de que estávamos completamente perdidos. Então um carro freou bruscamente ao nosso lado: era a mesma pessoa que nos indicara o caminho errado.

“Desculpem, mas depois que vocês foram embora eu me lembrei do lugar onde vocês querem ir”, ele começou. “E eu me dei conta de que indiquei o caminho errado… então entrem que eu levo vocês lá”.

Meio sem jeito, entramos – ele parecia ser um sujeito bacana (e nem nos demos conta de que ele estava bebendo vinho antes). Negro, por volta dos 50 anos e um sorriso do tamanho do mundo, ele se apresentou: Dwight. Fez a volta e seguiu pela Trumbull, pedindo desculpas pela mancada. Em menos de cinco minutos, estávamos na porta do UFO Factory.

Agradecemos pela carona e entramos – o lugar tinha aberto fazia cinco minutos, portanto estava vazio. Descobrimos que a banda “!!!” (pronuncia-se chik chik chik) iria tocar naquela noite, então pedimos duas cervejas, dois hambúrgueres e nos preparamos para a noite.

O lugar começou a encher lentamente, mas quando deu oito e meia, estava já abarrotado. Em São Paulo, o lugar abriria às oito, encheria às dez e a banda subiria ao palco pela meia-noite; aqui em Detroit, o lugar abrira sete e meia, estava cheio uma hora depois e a banda iria subir ao palco em mais uma hora. Estávamos comentando sobre isso quando alguém se sentou ao meu lado: era Dwight. O único negro em um lugar completamente tomado por brancos – e ninguém se importou com isso.

“A noite está bacana, vocês são legais e quando é que vem estrangeiros para Detroit? Então resolvi curti a noite com vocês”, ele disse. E fez: foi uma noite divertidíssima, onde tiramos fotos, conversamos com os locais, fomos convidados para cheirar no banheiro (negamos, viu mamãe) e inadvertidamente troquei uma ideia com o vocalista do “!!!” – que aliás, fez um show até que bem decente.

Conseguimos achar uma parte do show no Youtube:

Eram três horas da manhã quando Dwight nos deixou em nosso hotel, bêbados e confiantes de que Detroit é mesmo a melhor cidade dos EUA. Para quem quiser entrar um pouco no clima da cidade e entender sua importância para a Música, e para esse que escreve, separei uma playlist com os sons que fieram Detroit ser o que é.

E uma cidade como Detroit não poderia deixar de ser registrada, confira na galeria abaixo tudo que vimos e vivemos por lá.

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Eduardo Furtado

Escritor, tradutor e viajante, autor do livro "Nos Trilhos dos Andes".

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