Cedar City, Salt Lake City e Denver. O interior que ninguém vê nos EUA.
Estados Unidos

Cedar City, Salt Lake City e Denver. O interior que ninguém vê nos EUA.

Cedar City/Salt Lake City/Denver: nos cafundós dos EUA

Depois da intensa vertigem que foi Las Vegas, precisávamos de uma pausa para respirar. Então abrimos o mapa e escolhemos a cidade mais próxima que fosse um bom lugar para descansar e, do que pudemos concluir dentro de nossa ignorância, a cidade eleita foi Cedar City.

Se você já assistiu algum episódio da série The Ranch e gostou, Cedar City é o seu lugar – até mesmo porque a série se passa na mesma região, em uma cidade ficcional próxima a Telluride, que já é Colorado, embora Cedar City fique em Utah. É uma cidade tipicamente rural, onde se acontece alguma coisa não é nas ruas da cidade, mas sim dentro de quatro paredes. E ainda assim, não parece acontecer muito.

Mas não tínhamos como saber isso quando compramos nossas passagens para Cedar City e embarcamos em uma viagem de quatro horas pelo interior dos Estados Unidos. A paisagem é de deserto, resvalando por cidades tão pequenas que mal nos apercebemos que são mesmo cidades, em meio à poeira levantada pelo vento constante.

Sentimos falta das tretas que aconteceram em nossas viagens anteriores nos ônibus da Greyhound. Sem elas, a viagem foi incrivelmente maçante, desconfortável e entediante. Quatro horas sem nada para fazer e para ver, apenas a cor ocre do deserto dominando toda a paisagem.

Porém, em um Greyhound, sempre há uma história para contar. E a história dessa viagem é que o destino final do ônibus era Denver, no Colorado – estado onde a maconha é legalizada. De forma que estávamos em um legítimo Expresso da Fumaça; em cada parada do ônibus, sempre vinha alguém nos perguntar se estávamos indo ao Colorado e se sabíamos que lá era legal fumar maconha.



O ônibus nos deixou em um posto de gasolina que também fazia as vezes de rodoviária. Apesar de estar dentro de Cedar City, o lugar era tão isolado que tivemos de pedir para o funcionário da loja de conveniência chamar um táxi para nós. Esperamos uns vinte minutos pelo carro, e o que vimos neste ínterim? Absolutamente nada.

Quando o taxista começou a percorrer as ruas mais próximas ao centro da cidade, vimos que a desolação era total. A cidade deriva seu nome dos pinheiros que pintam as montanhas de verde, e esse é seu atrativo: as trilhas por entre as árvores nas montanhas, algumas levando até locais onde se encontraram pinturas rupestres dos ancestrais dos nativos norte-americanos. Como não somos antropólogos nem arqueólogos, ignoramos solenemente tudo isso.

Placa da avenida principal de Cedar City
Placa da avenida principal de Cedar City

Nosso hotel era na avenida principal da cidade, mas só quando chegamos lá vimos que não era um hotel e sim um motel, daqueles que você, durante uma viagem longa, entra com o carro ao cair da noite, pega a chave do quarto, estaciona em frente e dorme profundamente para na manhã seguinte retomar a sua viagem. Era isso ou resorts tão isolados que teríamos problema até para comer, sem ter um carro – apesar do isolamento, estes resorts, encravados nos vales das montanhas que circundam Cedar City, não oferecem almoço nem jantar.

Nos dias que ficamos na cidade, chegamos à conclusão que Cedar City é o lar do tédio. Essa região dos Estados Unidos é uma espécie de vácuo no país: esparsamente habitada, completamente longe de grandes metrópoles e sem nenhuma relevância econômica, especialmente para a população jovem. Foi andando pelas ruas da cidade que entendemos dois fenômenos recentes na história do país: a devastação causada pelo vício em opioides e a eleição de Donald Trump.

Não há nenhuma regulação governamental que estabeleça regras para a publicidade de remédios fortes nos EUA – aqueles que chamamos de tarja preta. Você pode encontrar anúncios de remédios pesados na TV, em jornais e até mesmo no metrô de Nova York.

Isso é um prato cheio para a indústria farmacêutica, que descobriu um meio para aumentar seus lucros na confluência de uma legislação frouxa e na alta obesidade que atinge todos os Estados Unidos. Esta obesidade leva, em idades mais avançadas, a dores crônicas, que só podem ser aliviadas com medicamentos à base de ópio. Então os fabricantes destes medicamentos oferecem significativos incentivos aos médicos para que receitem estes remédios altamente viciantes, criando assim uma onda de dependentes que assola principalmente a região onde está Cedar City.

Por que? Nos Estados Unidos, um plano de saúde é caríssimo e geralmente quem tem um é porque trabalha em uma empresa que subsidia o seu custo. Para quem não tem essa vantagem, é mais barato investir em uma consulta que já lhe dê a solução – geralmente envolvendo opioides. E é triste ver que a estratégia do traficante também é praticada por lá: a primeira caixa do medicamento é dada de graça pelo médico. Porém, nunca uma só caixa é suficiente.

Nesse cenário, é fácil entender que o eleitor nestes locais tem uma revolta ardendo dentro de si, esperando apenas pelo catalisador que reunirá todas as revoltas pessoais em um só discurso – e este catalisador foi Donald Trump. Na imensidão vazia de estados como Utah, Colorado, Arizona, Wyoming, Idaho e Nevada, a desolação econômica e o ataque de drogas legalizadas foram ignorados por muito tempo pelos centros políticos e econômicos, como Nova York e Los Angeles.

No meio dos EUA, a sensação é de se estar em outro mundo, e nós bem que poderíamos estar, mesmo. Afinal, onde mais alguém poderia se lançar candidato à Casa Branca sem o suporte de partido algum? Só em lugares tão remotos que nem Republicanos e Democratas se importam em dar um pouco mais de atenção. Nas eleições de 2015, apareceu um elemento surpresa em Utah: um ex-agente da CIA chamado Evan McMullin. Mórmon, assim como a maioria da população do estado onde está Cedar City, McMullin causou problemas tanto para Democratas e Republicanos, e terminou em terceiro só porque Trump e Clinton mobilizaram recursos de última hora para o estado.

Utah votou em massa para Donald Trump, seguindo sua centenária tradição. O condado de Iron, onde está Cedar City, foi onde Clinton sofreu uma de suas maiores derrotas no estado, recebendo apenas 1 de cada 5 votos para Trump.

Ao final de cinco dias em Cedar City, queríamos ir embora desesperadamente. Precisávamos de um táxi, mas aparentemente só há um táxi em toda a cidade – o que nos levou até nosso hotel, e ele estava ocupado. Resultado: foi o namorado da recepcionista que nos deu uma carona até o posto de gasolina.

No caminho, ao saber que somos brasileiros, ele comenta que o técnico de futebol da escola da cidade também é brasileiro – mas ele já foi embora. Nosso motorista é novo, no começo dos vinte anos, e acabou de voltar de uma missão do exército em algum lugar da África. Ele nasceu em Cedar City, por isso voltou à cidade após ser dispensado. Porém, ele não planeja ficar por lá muito tempo, como era de se esperar.

Rumo a Salt Lake City

Chegamos ao posto de gasolina e esperamos quase meia-hora pelo nosso ônibus até Salt Lake City, a capital de Utah. Embarcamos e encaramos outra viagem maçante de quatro horas pelo deserto. Ao norte de Utah, SLC faz conurbação com Provo e é a maior mancha urbana do estado. Incluindo a cidade de Orem, a região metropolitana de SLC concentra 65% da população de todo o estado.

É uma espécie de contradição que o estado símbolo dos Mórmons tenha uma população tão pequena, já que a poligamia é aceita pela religião e as famílias resultantes, centradas no homem, chegam a ter frequentemente bem mais de dez pessoas. Quem assistiu o reality show “Sister Wives” sabe bem disso: o cara tinha quatro esposas, com dezoito filhos! Aliás, “Sister Wives” é o reality show mais assistido no estado. Lá, todo mundo sabe quem é Kody Brown.

Ao desembarcar do ônibus em SLC, vimos que a estação do VLT era do lado da estação de trem da Amtrak. Fomos até lá para ver quanto custava a passagem até Denver e a que horas o trem saía. Para nossa surpresa, porém, a estação estava fechada e só abria às 22 horas.

Pegamos então o VLT e a primeira coisa que vimos ao sair da estação foi uma enorme fila de viciados morando ao lado de um muro, com suas barracas de acampamento, cães e a sujeira. Essa foi a brutal demonstração do estrago que a crise dos opioides está causando no interior dos Estados Unidos: todos os viciados que vimos na Cracolândia de SLC eram jovens, que começaram o vício roubando medicamentos comprados legalmente em sua casa.

O bonde nos deixou relativamente próximos de nosso hotel, mas ainda tivemos de dar uma boa caminhada para chegar até lá. No caminho, nossa conversa oscilava entre a fila de viciados e a quantidade de dias que ficaríamos na cidade. Quando finalmente chegamos ao nosso hotel, ficamos tentados a ir embora naquele mesmo instante. Era igual ao motel que ficamos em Cedar City, porém com um número muito maior de quartos; havia um casamento de imigrantes mexicanos e uma festa de jovens americanos, tudo ao mesmo tempo. Nosso quarto cheirava cigarro e era o lugar ideal para planejar um roubo, vender drogas ou assassinar uma pessoa. Tomamos um banho rápido, deixamos nossas malas ali e resolvemos andar para pensar no que fazer.

Era um fim de semana, mas não um final de semana qualquer, porque estava acontecendo uma parada gay. Um dos estados mais religiosos dos Estados Unidos celebrando o mês do orgulho gay… a cidade estava toda colorida, com pessoas fantasiadas andando de bicicleta, mulheres vestidas com o mínimo (e homens com menos ainda) e até mesmo cães e gatos paramentados. A festa ocorria em um parque, que estava cercado e havia cobrança de ingressos: 30 dólares por pessoa. Achamos melhor investir essa quantia em um almoço com cervejas.

Eu sou como um cão: não entendo nada de comida e meu apetite só abre quando cheiro alguma coisa boa. No caso, fui atraído para um restaurante indiano que tinha um garçom indiano que mal falava o inglês. E fiquei ainda mais animado porque havia um lugar para sentar que dava para uma janela. Sentamos, pedimos nossa comida e retomamos a questão: quantos dias ficaríamos?

A comida chegou e estava realmente muito boa, e aproveitamos quando o garçom (este era norte-americano) chegou para retirar nossos pratos para perguntar sobre a linha de trem até Denver. Ele não sabia: “ninguém aqui pega trem, a gente vai de avião”, ele disse, e com isso saiu.

A noite ia caindo e com isso, a cidade começava a tirar seus incentivos para que ficássemos mais tempo na rua. Toda a diversão de SLC parecia se concentrar na festa no parque, e não tínhamos a menor disposição de pagar sessenta dólares, ficar até altas horas para depois tentar descansar em nosso quarto de filme de terror. Mas voltamos ao nosso quarto, com aquele cheiro de cigarro, a festa de casamento mexicana ao lado e jovens entrando e saindo de nosso prédio.

Resolvemos relaxar um pouco, tomar um banho e ir embora. E hoje, escrevendo este texto depois de quatro meses, não nos arrependemos nem um pouco de não ficarmos nem uma noite em Salt Lake City.

Acordamos às três da manhã, chamamos um táxi e fomos para a estação de trem – não entendi bem, mas como ficamos pouco e o cara da recepção estava fazendo o balanço, acabamos não pagando pelo quarto.

Quando chegamos na estação, o lugar já estava cheio, mas ainda assim conseguimos comprar nossas passagens. Bom, chamar aquilo de estação é um eufemismo: tratava-se de uma casa na beira do trilho, com algumas cadeiras para sentar e só. Pensando bem, a estação de trem em SLC era tão precária quanto o lugar onde pegamos o ônibus em Chihuahua.

O trem saía às cinco da manhã, de forma que esperaríamos ainda mais duas horas. As pessoas que iriam embarcar conosco eram simples, algumas carregando tantas malas que pareciam de mudança e outras sem mala alguma. Em geral, tinham aquela cara meio afetada pela noite mal dormida, mas ainda era possível ver que estavam como que fugindo para o norte.

Fui ver no mapa da estação para onde era essa fuga e me dei conta de que estávamos prestes a embarcar no California Zephyr, o trem que liga Los Angeles até Chicago. Eu poderia muito bem estar presenciando um fluxo migracional, ainda que a conta gotas, do meio dos estados Unidos para seus extremos: Chicago, na fronteira do Canadá, e Los Angeles, à beira do Pacífico.

Quando faltavam quinze minutos para as cinco horas, o guarda mandou todos os passageiros se enfileirarem fora da estação, junto a uma grade que separava a plataforma de embarque dos trilhos. Fiquei pensando como seria se estivesse chovendo ou nevando.

Com cinco minutos de atraso, o trem chegou e começamos a embarcar. A composição era longa, com oito carros de segunda classe, dois de primeira, um vagão restaurante e a locomotiva. Encontramos nossos assentos e logo veio outro funcionário da Amtrak perguntar nosso destino; com a nossa resposta, ele escreveu algo parecido a um número em um papel cor de rosa e nos entregou. Não sabíamos o que fazer com aquilo; olhei ao redor e vi que todos colocavam seus papeis no suporte do bagageiro, acima dos assentos, preso na plaquinha com os números de cada poltrona. Fizemos o mesmo, sem saber porquê.

O trem partiu depois de dez minutos e logo caímos no sono, juntamente com todo o vagão.

Pela manhã, fomos comprar nosso café – basicamente um copo de 500 ml de café aguado e um roll de canela. Porém, o que faltou em comida sobrou em paisagem: saímos do deserto e começamos a driblar o sul das Montanhas Rochosas, com seus desfiladeiros, rios e riachos surpreendendo a cada curva.

Absortos pela paisagem estonteante, quase perdemos a hora do almoço. Por 17 dólares, a Amtrak serve uma refeição até que decente, consistindo de entrada, um prato principal e a sobremesa, além da bebida. O número de mesas é bem inferior ao de passageiros, de forma que é necessário esperar um pouco de pé. E como estávamos com as nossas mochilas, preferimos nos revezar para que um sempre ficasse cuidando das coisas.

Quando chegou minha vez de comer, sentei-me ao lado de dois norte-americanos e de uma inglesa. A norte-americana saíra de Los Angeles e ia até Chicago; o outro norte-americano desembarcaria em Denver e a inglesa planejava percorrer todos os Estados Unidos de trem.

Ao fazer minha apresentação, falei que eu era brasileiro, o que chamou a atenção da norte-americana: ela já visitara o Brasil algumas vezes, sempre em Brasília – que ela gostava. Trocamos amenidades sobre nosso país e as eleições, assunto que sempre apareceu em nossas conversas com os nativos. O curioso é que, desta vez, a norte-americana tinha um tom quase de desculpas, enquanto a inglesa exprimia sua incredulidade com Donald Trump. Como brasileiro, eu só podia ser simpático com a norte-americana: ninguém melhor do que nós para eleger políticos tão absurdos quanto… ah, esquece esse assunto.

A viagem seguiu sem mais surpresas até nosso destino final, quando chegamos de noite. A estação de Denver é enorme, inaugurada em 1894. Por algum motivo que nem a Internet consegue explicar, também se chama Union Station, assim como em Chicago e outras cidades, exceto Nova York. O prédio principal, porém, parece-se mais com um shopping do que com uma estação de trem. Há incontáveis restaurantes, alguns bares, uma livraria, lojas de presentes e no centro, há até uma mesa de air hockey à disposição.

Denver, a última parada no interior dos EUA

Chamamos um táxi que nos levou por ruas intermináveis até nosso hotel, que na verdade era um motel, à beira de uma avenida tão larga que parecia uma rodovia. A recepção estava lotada quando entramos, quase à dez da noite. Mas pegamos nossa chave e fomos para um dos quase 600 quartos que o motel dispõe para passar a noite.

O problema era que tínhamos fome e tudo já estava quase fechado. Por sorte, ao lado do hotel, havia um restaurante igual àquele da cena de abertura de Pulp Fiction. Entramos e eu olhei para todo mundo, à procura de Honey Bunny e Pumpkin. Mas o lugar era de boa e, mesmo sendo de noite, pedi um típico café da manhã: ovos com bacon, uma massa de batata frita que eles chamam de hash brown, pão e café.

Na manhã seguinte, resolvemos ver do que Denver é feita. Meu cunhado visitou a cidade há alguns anos e se encantou por ela; queríamos saber se tínhamos nossos corações peludos ou não. E a triste conclusão é a de que temos nossos corações muito peludos e sem nenhuma possibilidade de depilação – pelo menos no que tange à Denver.

A capital do Colorado é uma cidade de passagem; um respiro para se aventurar pelas Montanhas Rochosas, das quais é a maior cidade, ou para seguir viagem – mas não é um destino em si, assim como Nova York ou Chicago. A cidade é tão monótona quanto Phoenix e só fica legal se você conhecer alguém que more por lá – o que não era o nosso caso.

Denver possui belos parques… e não mais do que isso. Quando estávamos indo para o nosso hotel, a taxista começou a nos indicar pontos de interesse na cidade: o aquário, um restaurante que vende o sanduíche típico de Denver (e por aí você já viu que a gastronomia por lá é aquela coisa…) e passeios pelas montanhas, fora da cidade. Ao se dar conta de que a lista de atrativos turísticos era bem curta, ela começou a justificar dizendo, basicamente, que Denver era uma cidade de caubóis e que a cultura do lugar não mudou tanto assim com o passar do tempo.

Por exemplo: em 1972, o Colorado, levado principalmente por Denver, recusou um convite para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 1976 porque recursos públicos teriam de ser usados na organização dos jogos.

O espírito caubói não aparece só em confronto contra a globalização: Denver é uma das cidades mais violentas de toda a região das Montanhas Rochosas, que vai do Canadá até o Novo México – consequência da epidemia de opioides que assola a região. É também um lugar de leis curiosas: se você atravessar a rua com o farol fechado – quem faz isso é chamado de jaywalker -, poderá ser multado; no entanto, um carro pode fazer o mesmo, em qualquer situação, sem nenhum problema com a lei. O resultado é que quase fomos atropelados várias vezes, nos três dias em que ficamos na cidade.

Quando voltamos, à noite, percebemos uma movimentação estranha em nosso motel. Havia uma van estacionada e percebemos um número maior de hispânicos sentados nas escadas externas do prédio, conversando em baixa voz entre si. Eles eram, na maioria, de meia-idade, bem humildes, e tinham o ar cansado, como que tivessem acabado de deixar suas fazendas em algum país da América Central. Havia algumas pessoas andando ao redor do edifício, também; elas só olhavam, não diziam nada. Na manhã seguinte, tanto a van quanto os hispânicos tinham ido embora.

Alguns negros pareciam morar no motel, porque eles andavam de meia pelos corredores, que eram todos externos, e nunca deixavam os quartos por muito tempo. Alguns deles saíam para passear com seus cachorros, pelas manhãs, e cumprimentavam outras pessoas que estavam no motel. Já tínhamos visto a crise imobiliária em Los Angeles, quando nos hospedamos em um quarto de uma casa onde uma mulher (igualmente negra) morava com os filhos em outro quarto; em troca, ela limpava a casa e cuidava dos hóspedes. Em Denver, aqueles negros pareciam ter menos sorte do que a mulher de Los Angeles.

Nossa passagem pelo interior dos Estados Unidos teve o valor de nos ensinar que a vida em uma metrópole pode ser dura, mas no interior, as dificuldades ainda são maiores. Não importa se for no que se convencionou chamar de “superpotência” ou em um país em desenvolvimento: a disparidade entre interior e metrópole está sempre aumentando, seja em termos econômicos ou sociais, e o interior só pode revidar com sua força política. Por isso a resposta à falta de oportunidades e às drogas que devastam o interior é sempre elegendo alguém que defende o oposto ao que deseja o morador das grandes cidades (a saber: Trump não ganhou em nenhuma grande cidade dos Estados Unidos).

Então resolvemos embarcar diretamente para Chicago. O trem sairia às 17 horas de Denver e chegamos na estação às 15 horas. Compramos nossas passagens e começamos a esperar. Porém, fomos avisados de que haveria um atraso de duas horas, por causa da chuva. Fomos jantar e, ao voltarmos, o atraso tinha passado para três horas.

Eram oito horas da noite quando a estação começou a encher: havia um estádio de beisebol ao lado e houve uma partida à tarde. Agora o jogo acabara e todos os torcedores vinham beber dentro da estação. O barulho era ensurdecedor, com gritos, correria e risadas estrondosas, tudo isso ecoando pela antiga construção. Não era possível sair, porque a chuva estava bem forte; e o trem iria atrasar mais duas horas. O resultado foi que ficamos seis horas esperando nosso trem, com a cabeça a ponto de explodir devido a tanto barulho.

Às onze horas da noite, finalmente o trem chegou e embarcamos sob a chuva insistente. Com um certo alívio e com muita coisa a pensar, estávamos a caminho de Chicago, com uma grande ideia na cabeça.

Homem olhando pela janela do trem para Chicago
Rumo a Chicago…

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Margot

Quando minha vida saiu dos trilhos percebi que podia ir pra qualquer lugar. Virei mochileira depois dos 30 e criei o blog pra contar sobre essa aventura.

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