Arte na Motor City: Instituto de Artes de Detroit
Estados Unidos

Arte na Motor City: Instituto de Artes de Detroit

Depois de Chicago, era a hora de conhecer Detroit. E esta foi nossa cidade favorita nos Estados Unidos. Achou inusitado? Então dá uma olhada aqui que o relato do Edu sobre a nossa passagem por lá, tá pra lá de bom. Bem, Detroit tem toda a questão musical e histórica que nos fascinou, mas havia ainda uma outra surpresa na cidade que só me fez ficar ainda mais gamada por ela, o Instituto de Artes de Detroit.

Certo dia pegamos o VLT e descemos no meio do trajeto para conhecer a região, e lá estava o prédio do Instituto, super imponente. Demos a volta para tentar achar a entrada e um funcionário disse que naquele dia o prédio estava fechado.

A vontade de conhecer não passou, claro, e retornamos outro dia. E valeu muito a pena não ter desistido.

A história do Instituto de Artes de Detroit

Prédio do Instituto de Artes de Detroit

Antes conhecido como Museu de Detroit, o edifício ocupa mais de 62.000 m² da Woodward Avenue e foi originalmente construído em 1885. A coleção é simplesmente impressionante, pode-se dizer que existe pelo menos uma obra por metro quadrado, já que a coleção tem mais de 65.000 peças entres esculturas, pinturas, etc.

Grande parte da coleção pertencia a James E. Scripps, uma figura famosa na imprensa e filantropo da cidade.

O museu foi modificado ao longo do tempo e o edifício que se vê hoje foi construído em 1927 por Paul Cret. O estilo do prédio é todo em Beaux-Arts – assim como o Palacio Bellas Artes na Cidade do México – e tem uma enorme réplica do Pensador de Rodin bem na escada principal.

É possível ver grandes obras de artistas como Van Gogh, Gauguin, Degas, Rousseau, Matisse, Picasso, Cézanne, entre muitos outros da Europa, África e Estados Unidos. Toda a coleção é muito bem organizada e catalogada.

É um lugar para visitar várias e várias vezes. Infelizmente só fomos uma, então tentei tirar o máximo proveito dela. 😉

As obras mais importantes do Instituto de Artes de Detroit

Quando Detroit decretou falência em 2013, com permissão do Tribunal Federal dos EUA, houve grande movimentação entre o mundo das artes. Isto porque o Instituto de Arte possuía grandes obras, que poderiam acabar sendo vendidas para saldar as dívidas da cidade.

Lembro de acompanhar isso bem ao longe, até porque naquela época era uma realidade muito distante imaginar que um dia eu visitaria Detroit. No entanto, 4 anos depois, cá estou!

Por sorte, muitas dessas obras continuam a fazer parte do acervo e eu consegui ver pessoalmente. <3

Uma delas é “The Nightmare” do pintor anglo-suíço Henry Fuseli. O quadro é de 1781 e mostra uma figura feminina, envolta por uma luz branca, que dorme com os braços e pescoço pendendo para fora do colchão.

Em cima dela está uma figura sentada. Parece uma gárgula ou goblin, e está olhando diretamente para o espectador. No fundo sombrio do quadro, vindo por cima dos pés da mulher, emerge uma cabeça de cavalo com olhos brilhantes que olha para a mulher.

Nightmare, pintura de Fuseli

Exibida pela primeira vez no Royal Academy de Londres em 1792, a obra causou alvoroço. Também, pudera. Para época era um quadro escandaloso já que sua temática não é lá muito “moral”. Não é uma história retirada da Bíblia e nem a idealização de literaturas históricas.

Na verdade, o quadro dá margem pra muita interpretação. E tem um apelo sexualizado, para a época, que era chocante.

A figura em cima da mulher é tida como muitos historiadores como o “Incubus” um ser mitológico que visita as pessoas nos sonhos e algumas vezes faz sexo com as mulheres adormecidas. No quadro, não se sabe exatamente o que o pintor está mostrando. É apenas uma visita ou é algo mais para acontecer? Ou mesmo já aconteceu.

O rosto da mulher em êxtase, que me faz lembrar muito “O Êxtase de Santa Teresa” de Bernini, deixa no ar se ela está sonhando ou não. O nome do quadro poderia facilitar a vida, né? Seria uma representação de um pesadelo.

Mas acontece que a partícula “mare”, em nightmare, vem do inglês “mara”, um espírito em forma de égua que na mitologia pagã estava relacionado ao tormento. Dizia-se que esse espírito vinha sufocar os dorminhocos. Mara também é, no budismo, a figura oposta a Buda, e representa a morte e sedução.



No caso do quadro, mara é uma opressão mórbida na noite. Assim, há quem diga que a pintura de Fuseli pode de fato ser entendida como uma forma visual da experiência física da pressão no tórax sentida durante um estado de sonho ruim.

E é por tudo isso que este é um quadro que diz ter inspirado Freud e suas teorias sobre os sonhos. Não bastasse isso tudo, o jogo de luz que ele faz é incrível. Fiquei um boooom tempo parada na frente desse quadro. Pessoalmente ele é muito magnético. Não tem como evitar olhar para a cena e ficar com uma certa estranheza.

Pra mim, é um dos pontos altos da coleção. Mas, não parou por aí. Foi lá que vi meu primeiro Van Gogh…e pra começar foi logo um dos autorretratos.

O “Self-Portrait” de Vincent Van Gogh, de 1887, é uma obra pequena, mas marcante. Isso é sempre interessante de se ver. Quando vemos uma obra, seja uma pintura ou uma torre de TV no meio da Cidade Luz, criamos uma proporção na nossa cabeça e idealizamos aquela peça.

Às vezes nos surpreendemos positivamente, outras negativamente. Com Van Gogh isso não faz diferença. Você nunca está preparado para ver as pinceladas de perto, que é uma das grande forças de seu trabalho.

Autorretrato de Van Gogh

Olhando por fotos, você imagina que tal parte do quadro é uma cor, mas quando vê ao vivo, a pincelada é tão forte e marcante que na verdade aquela “cor” é apenas a sombra projetada da pincelada.

Daqui alguns dias sai o post sobre o Instituto de Artes de Chicago e lá dá pra notar isso ainda mais. Fica de olho que esse próximo post também é imperdível! Voltando a Detroit…(rs).

Eu poderia ficar aqui o dia todo, e mais algumas noites, falando de todas as obras que me emocionaram – e me fizeram agradecer por essa viagem de volta ao mundo que me proporciona ver tudo isso ao vivo -, mas o texto ficaria simplesmente enorme e muito chato. (rs)

É muito difícil resumir o Instituto de Arte de Detroit em algumas palavras, pois a coleção é extremamente relevante. E há peças de todas as épocas e estilos. É um pequeno – até que nem tão pequeno assim – passeio pela História da Arte.

Além disso, lá não é só um museu, é um Instituto, e o que determina isso são os diversos cursos e programas para trazer as pessoas ainda mais para perto da arte.

Como dizem quem uma imagem vale mais do que mil palavras, eis uma galeria com as obras que mais me impactaram na visita por lá:

E nem só pelo acervo de telas o local tem sua importância, mas por suas paredes também…

Os murais de Diego Rivera

Mural de Diego Rivera em Detroit

Pois é. Se você acompanha o blog – Se não acompanha: “COMO ASSIM, HEIN!?!” – deve ter visto meus posts de rasgação de seda infinita com o México. Ficamos três meses pelo país e saí de lá apaixonada-nível-Felícia pelo lugar.

E parte dessa paixão é por causa do Muralismo Mexicano, o movimento artístico mais expressivo do país. E um dos artistas mais importante do movimento foi Diego Rivera.

Todo o México possui murais importantes pintados por ele, mas seu talento ultrapassou fronteiras – ai que clichêêê essa frase…hahaha – e, por isso, muitos de seus murais também cobrem paredes fora do território mexicano.

E então, em plena Motor City lá estavam os murais de Rivera cobrindo não só uma parede, mas a sala inteira reservada à eles.

Em 1932 Edsel Ford, filho de Henry Ford e presidente da empresa, e William Valentiner, diretor do Instituto de Artes de Detroit, comissionaram Rivera para pintar dois murais para o Garden Court do museu. A única regra era que o trabalho deveria se relacionar com a história de Detroit e o desenvolvimento da indústria.

Quando Diego Rivera chegou em Detroit, em 1932, para pintar os murais, a cidade era um polo industrial de peso, quiçá o maior do mundo naquela época. Ao mesmo tempo, era uma das cidade mais afetadas pelo crash de 1929. Em 1932 a força de trabalho da cidade era um terço de antes da Grande Depressão.

Diego chegou na cidade dias antes da “Hunger March”, uma passeata em que milhares de desempregados marcharam de centro de Detroit até a fábrica da Ford para pedir emprego.

Quando a multidão alcançou as portas da fábrica, os seguranças, armados, entraram em pânico e abriram fogo, matando seis pessoas. O episódio acabou ficando conhecido como “Battle of the Overpass”. Os trabalhadores acabaram sendo expulsos da Ford, mas Diego os eternizou em seus murais.

“Detroit Industry Walls” surgiu em meio a tanta história que Diego não poderia deixar de se influenciar por ela, afinal era isso que tratava seu trabalho. Cada pedaço de muro conta algo importante e em detalhes. O próprio artista diz que o considera como um dos seus melhores trabalhos.

Quando Rivera recebeu a planta da sala, as paredes estavam designadas por pontos cardeais: leste/oeste/norte/sul. Ele aproveita disso e usa esse fator na sua criação. Sendo assim, a parede leste, onde nasce o sol, ele aproveita para falar do início de tudo.

Então ele faz a representação da agricultura através de uma criança embalada por dois arados e emoldurada em ambos os lados por pesados nus segurando grãos e frutas.

Na parede oposta, a oeste, onde o sol se põe, Diego fala do fim e por isso pintou aviões de passageiros e bombardeiros. Os usos construtivos e destrutivos da tecnologia são claramente apresentados.

E, entre o começo e o fim, nas paredes norte e sul, toda a história da indústria de Detroit é apresentada. E ele mostra isso através do que é a produção do Ford V-8.

Quando a obra ficou finalmente pronta e foi revelada ao mundo, houve uma grande controvérsia. Em grande parte por um pequeno mural da parede norte que mostra uma criança sendo vacinada. Era uma alusão de como a medicina – com suas novas tecnologias – seria a nova salvadora da humanidade.

E foi aquele quiprocó danado – bem parecido com o que estamos vendo hoje com as exposições Queermuseu, etc – onde de um lado havia milhares de pessoas assinando petições para destruir os murais e tantos outros milhares para mantê-los.

A Igreja Católica se manifestou, e manipulou muitos trabalhadores, e a imprensa escreveu sobre o assunto por semanas a fio. O Conselho da Cidade chegou a cogitar uma votação para que os murais fossem apagados.

Por fim, Edsel Ford aceitou publicamente os murais e assim eles começaram a fazer parte da coleção do museu. E está lá de pé e lindão até hoje.

É realmente um dos trabalhos mais impressionantes de Rivera, talvez só perca (no meu gosto mesmo) para “O controlador de Universos” que ele fez no Palacio Bellas Artes. De qualquer forma, a história por trás e nas tintas do mural é por si só, um grande chamariz para visitar o Instituto de Artes de Detroit.

Informações práticas

O site do DIA (Detroit Institute of Arts) é bem completo e você pode fazer uma visita pela coleção. Cada obra está digitalizada por lá. O que é bom para programar uma visita.

Como o prédio é muito grande, você pode separar tudo que quer ver com antecedência e então “ganhar tempo” na visita. Isso é bom para quem não vai ficar muito tempo na cidade, mas se você tiver a chance de passar alguns dias lá, vale ver e rever o museu algumas vezes.

A entrada custou $14 e não existem dias gratuitos para visitação, infelizmente. Mas o preço é mais que justo! Eles fecham às segundas. De terça até quinta funciona de 09h até 16h. Sexta de 09h até 22h e sábado e domingo de 10h até 17h.

Para chegar até lá não tem mistério, basta pegar o VLT e descer na estação da Warren Avenue.

O Instituto está bem próximo a Wayne State University, e por isso, além dele, existem outros prédios de arte para visitar bem próximos, como o Museu de Arte Contemporâneo, o Museu Histórico, o Charles H. Wright Museu de História Afro Americana.

Bem, como eu gosto (muito) de falar sobre Arte, fica esperto que o próximo post é sobre outro Instituto de Artes, dessa vez…o de Chicago! Já dou spoiler que eu queria morar naquele instituto… <3

Informações

O Instituto de Artes de Detroit reserva obras incríveis, além dos murais pintados por Diego Rivera contando a história da industrialização da cidade.

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Margot

Quando minha vida saiu dos trilhos percebi que podia ir pra qualquer lugar. Virei mochileira depois dos 30 e criei o blog pra contar sobre essa aventura.

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