De diva pra diva

Assédio e tratamento na estrada. Viajar com liberdade (Parte III)

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Sobre questões de assédio e tratamento na estrada.

Estamos numa fase interessante sobre discussões de como as mulheres têm sido tratadas e como algumas atitudes que passamos na rua são tidas como normais, quando não deveriam ser. O assédio é algo que toda mulher vai ter que saber lidar na estrada, infelizmente.

Bem, não estou viajando sozinha como vocês sabem, então não posso dizer que é uma experiência de mulher viajando sozinha. Mas eu e Edu não somos gêmeos siameses (apesar de convivermos 24h por dia juntos) e eu saio sozinha várias vezes pelas cidades pra resolver alguma coisa, sair pra correr etc.

“Princesa, rainha, gostosa…”

Princesa...
Como assim?? Como ousa???

Até agora foram 24 cidades visitadas e só é uma delas me senti realmente insegura em relação a assédio. Eis a situação: estava precisando resolver um problema com meu celular que tinha pegado vírus, então procurei uma dessas lojas que arrumam e fui lá. Estava de short jeans, uma blusa solta e chinelo. A blusa não tem decote e deixa uns 2 dedos de barriga pra fora porque ela é mais curtinha. Eu d-e-t-e-s-t-o usar sutiã e nesse dia estava com os seios mais doloridos porque estava nos dias pré-mestruação. Fui até a assistência (uns 2 Km de distância) deixei o celular pra pegar depois e voltei pra casa. Na rua de casa (do Airbnb que a gente estava) bem na esquina, alguém estava saindo com o carro de uma vaga de rua, aqueles carros grandes tipo SUV. Parei e esperei a pessoa sair e segui meu caminho. Alguns metros depois o carro encosta, abre a janela…e o cara que estava dirigindo me presenteia com o seguinte diálogo:

_ Ei, moça. Por favor…
_ Pois não?
_ Pra onde você está indo?
_ Desculpe, não entendi.
_ Você está indo pra onde, quer carona? Posso te dar uma carona?
_ Não, obrigada. Estou bem a pé.
_ Mas deixa eu te dar uma carona, quero te conhecer.
_ Cara (quando eu tô puta eu falo C-A-R-A), eu sou casada.
_ Se você é casada, por que está com essa blusa? Só pra instigar a gente?
_ …
_ Eu também sou casado, aqui ó (e mostra a aliança)!
_ Que bom pra você.
Ele segue um pouco e pára de novo.
_ Sério, me dá seu contato, seu WhatsApp, eu me apaixonei por você nessa blusa.
_ Não, obrigada. Até mais.

Atravesso a rua, vou andando devagar pro cara não ver onde vou entrar e parece que ele desiste depois de um tempo e vai embora.  Isso aconteceu em Salvador. Na época, quando postei no Facebook esse fato, várias amigas vieram falar que lá é treta mesmo.  Já usei o mesmo modelito várias outras vezes e não tive o mesmo problema.

Mas posso dizer que não teve uma vez sequer de sair na rua sozinha e não escutar um “elogio”. Se eu ganhasse um pedaço de terra por cada “Princesa” ou “Rainha” que eu escutei até agora na viagem, eu já era dona de metade do Brasil. rs

Em Belo Horizonte eu estava indo descobrir onde era um supermercado e parei pra pedir informação pra um cara que estava passando. Daí ele até que tava de boa explicou que era dobrando aqui e ali e no fim me solta: Eu moro bem aqui na esquina, você não quer conhecer a minha casa? Posso te mostrar o que tem de melhor em BH? (e deu aquela olhada, sabe?) Foi tão inesperado que só respondi um: Mas que sem noção, hein meu Senhor! E segui meu caminho.

Um dos cara que nos ajudaram na viagem, e que entrei em contato por telefone na época, veio me adicionar no WhatsApp quando já tínhamos saído da cidade dele. Puxar papo, perguntar do Edu…achei meio invasivo (ele também tinha o telefone do Edu) e bloqueei.

No geral, nas outras cidades o assédio é o típico “princesa”, “gostosa” etc. Aqui em Manaus (onde estamos agora) não passei ainda nenhum “perrengue” nesse sentido. Acho que há também uma outra questão que vale ser considerada…as pessoas sabem quando você não é da cidade.

Sobre estar vulnerável e evitar aproximações

Sai fora...
Sai fora…

Por mais discreta que sejam as roupas que trouxe na viagem (discreta no “modelo”, porque tenho uma camisa laranja Comlurb…<3), tem o tipo físico, o cabelo (meu cabelo é curtinho e vermelho), tem o sotaque…acho que tudo isso acaba chamando atenção inevitavelmente. E por isso também ficamos mais vulneráveis, quando você sai do circuito onde é mais frequentado (Rio/SP, no meu caso) você acaba chamando mais atenção.

Por isso, alguns dos hábitos que trouxe do Rio eu mantenho na viagem. São alguns cuidados para evitar abordagens e até possíveis assaltos:

  1. Quando estou sozinha em ônibus eu nunca sento na janela. Isso porque se você está sozinha e senta na janela alguém pode sentar do seu lado e aí você fica encurralada. Se quiserem te assaltar, tentar passar a mão, ou até mesmo encostar uma faca na sua barriga…danô-se. Eu sento no corredor e se alguém estranho sentar do meu lado, eu simplesmente levanto e vou pra perto da porta, fingindo que vou descer.
  2. Quando preciso de informações peço em banca de jornal ou lojas, se possível para mulheres. Assim não pareço tão “perdida” e não corro o risco de alguém na rua querer dar uma de engraçadinho.
  3. A bolsa está sempre pro lado de dentro da calçada. Se a rua está a minha direita, levo a bolsa no ombro esquerdo e vice-versa. Dessa forma, se alguém passar de moto ou bicicleta na rua, a chance de puxarem a bolsa é mais difícil.
  4. Sempre que estou em algum lugar novo e viro uma esquina tento dar uma rápida olhada pra ver se não tem ninguém suspeito. Se eu me sentir insegura, mudo o caminho. Segurança é uma questão se sensação e a nossa intuição conta muito nisso.
  5. Em relação ao celular, eu não fico mexendo a torto e direito na rua, pego pra mudar uma música, ver um mapa, mas sempre se sentir que não tem ninguém estranho por perto. E a música nunca está num volume que tire toda a minha atenção.
  6. Viajando de ônibus (de viagem) há um hábito que sempre sigo que é não deixar nada de valor quando desço na parada. Se ficou no ônibus é porque não vai me causar muito transtorno caso alguém pegue.

Parece que sou uma pessoa noiada, mas não sou não. Acho que incorporei esses hábitos, infelizmente, e hoje faço quase no automático. Não vivo em estado de alerta, lendo tudo isso você deve imaginar que vivo olhando por cima dos ombros, né? rs Mas não. Eu tinha um namorado que era muito, muito, muito, muito noiado…tudo era uma preocupação, tudo era perigoso. E nem sempre é assim. Andar na rua parecendo “muito preocupada” chama ainda mais atenção e podem achar que você tem mais coisas valiosas do que realmente tem.

Outra coisa que faço é quando procuro alguma hospedagem (por sinal tem um post falando só disso, aqui): eu sempre olho no Google o nome do bairro+assalto+assédio+segurança. Assim, vejo se existem muitos casos, ou recentes sobre a segurança do bairro. Então já chego no lugar com uma sensação melhor de segurança.

O machismo nosso de cada dia

Liberdade!!!

Sem cair em profundas discussões sobre o machismo e tudo que nos fez chegar ao ponto que estamos hoje (mas quem quiser discutir mais, tô aí aberta pra negócio, só me chamar) algo chamou muito a minha atenção quando começamos a chegar no Nordeste.

Em quase todos os lugares em que a gente foi, seja almoçar, fechar algum passeio etc, os atendentes falavam direto com o Edu: “Senhor…”, “Senhor Eduardo….”…todas as perguntas e solicitações eram feitas pra ele. Como se eu nem estivesse ali. Isso aconteceu em Salvador, Aracaju, Natal, Recife, Macapá…

Só que eu e Edu dividimos naturalmente as tarefas e eu acabo controlando o dinheiro que sai (uhu…eu gasto! Mas com responsabilidade…rs), então eu pago as contas pra poder fazer meu controle e saber exatamente no que gastamos, quanto ainda temos etc. E isso foi engraçado de observar.

Cena típica na viagem pelo Nordeste e parte do Norte: o garçom atende a gente, pergunta as coisas pro Edu, pedimos a conta e quando a conta chega…entregam pro Edu. O Edu me entrega e eu pago…aí os sujeitos ficam com cara de tacho! rs

Parece algo pequeno, mas não é. Infelizmente ainda existe esse tipo de comportamento pelo Brasil.

A grande conclusão é…não se prenda por medo. Em alguns casos estamos mais vulneráveis por ser mulher, mas já enfrentamos essas questões todos os dias e viajar é só um ponto a mais nessa equação. No que eu puder ajudar trocando figurinhas, só me avisar. =)

Espero que tenham gostado dos posts dessa semana. Na próxima farei alguns sobre as questões mais “divas” da viagem (roupas que trouxe…cabelo, maquiagem etc)…rs

Se você ainda não viu os outros posts dessa séria só acessar aqui pra ver o post sobre liberdade sexual e aqui sobre liberdade durante a menstruação.

Até a próxima! <3

Margot

Quando minha vida saiu dos trilhos percebi que podia ir pra qualquer lugar. Virei mochileira depois dos 30 e criei o blog pra contar sobre essa aventura.

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02 Comments

  1. Yriz Soares

    Eu não quero nem saber retruco na hora os manés! Depois dessa vida morando em tudo quanto é canto(#faltasóosul) e aterrissando no NE, vem muito de conversinha fiada sem contexto vai ganhar uma encarada estilo “Que papelão hein seu sujeito”. E adoogo ver a cara dos sem-noção mudando de “Hey SEXY LADY” para “então o que posso ajudar senhora?” Adorei o post #nãopassarão #sónadivatem

    7 de julho de 2016 Responder
    • Margareth Furtado

      Boa, Yriz! rs
      No Rio eu retrucava mais…nos lugares que não conheço muito acabo ficando mais ressabiada.

      Adorei a hash #sónadivatem Vou adotar! <3

      7 de julho de 2016 Responder

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