Viajar com liberdade: “Só” para mulheres (Parte I)
De diva pra diva

Viajar com liberdade: “Só” para mulheres (Parte I)

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Viajar com liberdade?
Sobre o diafragma e algumas questões de ser mulher na estrada.

Se proteger na estrada
Partiu?

Esse post é mais voltado para mulheres, mas acho que se os homens quiserem ler é legal pra entender um pouco alguns perrengues que afetam às mulheres na estrada. Se prepara que lá vem textão (não por chatice, é que ficou grande mesmo…rs). Pra antecipar, vou falar de métodos contraceptivos e ele…o diafragma!

A viagem teve início oficialmente em Dezembro, mas pra mim ela começou um pouco antes disso. Não tive muito tempo pra me preparar pra essa viagem, então duas questões mais diretas que me preocupavam bastante:

  1. Não querer engravidar durante a viagem.
  2. Qual seria a forma mais prática de viajar menstruada.

Parece bobagem já que é algo que nós incorporamos no nosso dia a dia tão “naturalmente” e acaba passando batido, mas botando na perspectiva da viagem ganha outra dimensão. Junto com a questão da viagem tem também o fato de que estou numa fase mais “natureba” e de auto-conhecimento (parece clichê-modinha, mas não é não…rs). Sendo assim, estou mesmo mudando várias visões minhas sobre meu corpo, meus gostos pessoais, minhas vontades…e com isso foi inevitável mexer em como eu me relaciono com a minha liberdade de escolha sobre concepção.

Da Pílula pro Diafragma

Diafragma? O que é isso?
Diafragma? É de comer?

Não sou uma pessoa alarmista e que me impressiono facilmente, mas algo que eu já queria tirar da minha vida era o uso desnecessário de hormônios. Tenho histórico de câncer na família e sempre tento entender como prevenir possíveis problemas de saúde. Com isso, algo que eu queria cortar mesmo era a pílula anticoncepcional. Eu comecei a tomar pílula antes de começar minha vida sexual. E pelo que vejo muitas meninas também começam assim. Pelos mesmos motivos: diminuir as cólicas menstruais, as espinhas… Acho que a pílula foi uma grande evolução para emancipação feminina, mas os tempos mudam e hoje não a considero tão amiga das mulheres não.

Além do fato do histórico de câncer e o medo de como os hormônios poderiam interferir nisso ou não, outros fatores me fizeram optar por largar a pílula. Um deles é que a pílula diminui muito a nossa libido (pois é, ao mesmo tempo que ela ajudou as mulheres a se emanciparem e irem pra vida…elas iam pra vida meio que “castradas”). Outro ponto é que mais e mais estudos e casos estão aparecendo sobre a pílula como responsável por casos de trombose. Só esse ano de 2016 eu soube de três casos de mulheres próximas a mim que tiveram trombose e apenas uma era fumante. Pra mim esses dois fatores falaram muito alto.

Então no meio do ano passado comecei minha peregrinação pela busca do melhor método anticoncepcional pra minha vida. Eu sempre fui curiosa e lembro de um livreto que tinha em casa (desenhado pelo Miguel Paiva…olha aí a influência da Radical Chic desde cedo) que era uma cartilha falando de todos os métodos contraceptivos. Acho que minha mãe tinha pegado na época que ela trabalhava no hospital de Duque de Caxias. Enfim, tive contato com essas informações cedo e fiquei com isso na cabeça.

É o que?
Hum…

Pra decidir qual poderia ser o melhor método saí lendo um monte de artigos, blogs e me inscrevi em alguns grupos no Facebook específicos para discussões sobre contracepção não-hormonal. Basicamente os métodos que eu considerei para minha escolha foram esses aqui embaixo (ressaltando que nenhum desse métodos impede DSTs e os que adotei são porque tenho um parceiro fixo, numa relação monogâmica, e que sei que não tem DST):

Oi?
O que são essas coisas?

Temperatura basal: Nesse método você mede a sua temperatura pra ver os dias do seu período fértil. Quando a gente entra no período fértil a temperatura sofre uma pequena mudança. Como essa mudança é em questão de decimais, o lance é ter um termômetro eletrônico. E você terá que anotar todo dia a temperatura. Pode ser no papel ou em aplicativos próprios pra isso. A medição deve ser feita de manhã, antes de você levantar da cama. A maioria das mulheres usa esse método para planejar a gravidez e tentar transar mais nos dias férteis. Então, o oposto rola também e aí é evitar transar nos dias férteis ou usar um método adicional nesse dia (camisinha por exemplo).

Prós: É não-hormonal e o custo é baixo já que é investir num termômetro e só.
Contras: Ter que já acordar com uma “responsabilidade” na cabeça. Requer tempo e esforço para se adaptar ao método.
Eficácia: Não existe uma eficácia comprovada¹. A eficácia vai depender muito do ciclo de cada mulher, estilo de vida etc. Até porque é eficaz mesmo se você não transar nos dias férteis. E quando você estiver gripada ou com alguma outra enfermidade, isso altera o resultado da medição.

Muco cervical: Nesse método você se baseia na aparência do seu muco cervical pra saber o seu período fértil. O muco é uma secreção natural que o colo do útero libera durante todo o ciclo. Durante o período fértil o muco fica mais grosso. Mas uma coisa que aprendi testando esse método e pesquisando é que ele não é tão confiável logo de cara. De ciclo pra ciclo o meu muco muda pacas, hoje eu já consigo saber exatamente os meus dias férteis analisando o muco e a posição do colo do útero (ele é um brincalhão…às vezes sobe, outras desce, abre, fecha…uma l-o-u-c-u-r-a). Eu consigo usar esse método como um complemento, hoje…depois de mais de 6 meses analisando o muco. Acho super-mega-ultra válido para ajudar a se conhecer, mas você vai ter que se comprometer por um tempo pra entender o seu corpo.

Prós: Não tem hormônio e o custo é zero. Ótimo para conhecer o funcionamento do seu ciclo e perceber mudanças que podem ser preocupante ou não.
Contra: Requer tempo e esforço para se adaptar ao método. Não é confiável a curto prazo.
Eficácia: Não achei até hoje um estudo que comprove a eficácia dele.

DIU: O DIU (Dispositivo Intrauterino) é um dispositivo em forma de T com um fio de cobre enrolado que é colocado dentro do útero. Ele não é hormonal (hoje em dia existe um DIU hormonal também) e funciona de forma química. Você troca o DIU de anos em anos e a colocação é no próprio consultório médico. Dói um pouco para colocar e se você fizer o método acima de observar o seu muco e o colo do útero vai entender o porque da dor…a abertura do colo não é tããããããão grande assim…rs Apesar dele ser o mais prático é o que me deixou com o pé mais atrás. Sempre li que ele era mais aconselhável para mulheres que já tiveram filhos, já que o útero altera de tamanho depois da gravidez. Mas também li muitos relatos de mulheres que não se adaptaram, que o DIU saiu do lugar….e fiquei com muito receio de colocar e ter algum problema nos cafundós do mundo e me lascar. Então pode ser um método que eu use daqui há alguns anos, mas esse não era o melhor momento.

Prós: É prático e não requer disciplina de quem usa, exceto no período da troca.
Contras: São vários fatores. Pode mudar a sua menstruação pra melhor ou pra pior. Pode ocorrer a perfuração do útero na colocação (mas é raro). Pode se deslocar ou mesmo “cair” do útero. Não é um método caro quando você faz a conta pelos anos em que vai usar.
Eficácia: É de longe o mais eficaz com 99.1% de eficácia².

Diafragma: O diafragma não é um método novo, na verdade ele é uma invenção alemã e o primeiro data de 1870³. Mas com advento da pílula e da camisinha, ele acabou sendo deixado um pouco de lado. Também tem a questão de que os mais antigos eram feitos de látex e isso era complicado para mulheres alérgicas. Hoje o melhor diafragma do mundo é o brasileiro que é feito de silicone. Esse é um método de barreira, ele cobre a entrada do colo do útero e assim impede que o esperma tenha acesso ao útero. Pra isso ele deve ser usado em toda relação sexual e só pode ser tirado depois de no mínimo 8h (que é o tempo dos espermatozóides “caducarem”). Ao contrário do que muitos falam, ele não precisa necessariamente ser usado junto com espermicida. O espermicida funciona como um complemento. Assim quando você usa ambos, colocando o espermicida dentro do diafragma e nas bordas, você tem duas proteções: a química do espermicida e a barreira do diafragma. Ele pode ser colocado bem antes da relação sexual, não precisa parar o rala e rola pra colocar na hora. Você pode sair de casa com ele, ou usá-lo praticamente o tempo todo. O importante é que você vá a um(a) ginecologista que faça a medição do seu colo, isso porque cada mulher é de um jeito e existe diafragma de 60mm até 85mm. O tamanho interfere muito na eficácia, se você colocar um menor, vai deixar margem para que a barreira não funcione. Se colocar um maior pode gerar alguns problemas de saúde por “apertar” o seu canal vaginal. Para colocar existe um método certo, mas nada difícil. Só que a mulher precisa se sentir à vontade com o seu corpo para introduzir o diafragma, checar se está posicionado certo e retirar depois.

Prós: Não é um método caro. Custa R$150 e sendo bem cuidado ele pode durar até 10 anos.
Contra: Requer disciplina para sempre estar com ele quando tiver relações sexuais e contar o tempo certo para retirada.
Eficácia: Quando usado perfeitamente a eficácia é semelhante a da camisinha chegando até a 98%. Em uma utilização típica é de 84%4.

Ah é?
“Sabia que tinha uma pegadinha, mas conta mais….”

Existem outros métodos não hormonais como a esponja que você lambuza de espermicida, a tabelinha…mas não os considerei na minha escolha por ter achado pouco eficazes nas minhas pesquisas.

Por fim hoje em dia eu uso (E AMO) o diafragma. Além dele eu faço o acompanhamento do muco e do colo e tiro a temperatura (mas nesse sou mais relapsa, confesso).

Estou usando o diafragma há mais de 9 meses e estou simplesmente adorando. Sério…é sensacional. Quando falo pras pessoas que uso esse método muitos questionam sobre a eficácia baixa, mas aí que está a questão. A eficácia do diafragma só se torna baixa se a mulher não usar corretamente. Não basta dobrar o diafragma e enfiar na vagina. Tem que saber colocar para cobrir o colo do útero. Se não cobrir, não adianta de nada! Hoje em dia, depois de tanto colocar e tirar eu já sei quando ele está por trás da entrada do colo. E eu sempre verifico depois de colocar se cobriu certinho. É um método que precisa que você não tenha pudores de se tocar. E acho isso ainda mais bacana.

É também um método que dá muita liberdade. O homem não sente nada de diferente e nem sabe que o baguio tá lá. Mas vale ressaltar que não impede DST, existem estudos que mostram que ele barra os organismos que causam clamídia e gonorreia, mas só. O lado bom é que não tem problema de usá-lo junto com a camisinha. 😉

Eu me adaptei muito bem. Nos primeiros meses eu usei o espermicida. Apesar de não ser vendido em farmácia, você pode fazê-lo por manipulação. Um tubo sai uns R$43 e dura uns três meses (isso levando em conta muita ação…rs). Não estou aqui pra dizer: use o diafragma ou pare a pílula. Só quero mostrar que existem alternativas e que o diafragma é uma ótima opção para se ter mais liberdade tanto sexual quanto hormonal.

A médica que me atendeu é uma das “magas do diafragma”, além de ginecologista ela é também terapeuta sexual. Arretada e super gente como a gente. Ela faz a medição, ensina você a como colocar e retirar (na prática, com foco de luz e espelho…hahaha) e ainda te manda fazer dever de casa pra voltar depois e ver se aprendeu mesmo a usar. Ela usou o método por 40 anos e só engravidou quando quis. Acho que isso também fez toda a diferença para eu me sentir segura em usar. 😉

Sei que com essa mudança de método contraceptivo eu me sinto bem mais tranquila. Sem interferência dos hormônios da pílula a libido vai lá pra cima, mas também tem o fato de você tentar entender as suas flutuações hormonais. Pra não ficar tomando muito remédio, apelar prum chá numa cólica mais leve, alterar a alimentação…essas coisas. Mas tá valendo a pena. É uma sensação boa de liberdade.

Com o diafragma
Como eu me sinto quando…boto o diafragma sabendo que hoje tem! rs

Se alguém quiser conversar mais sobre tudo isso, pode me chamar que terei o maior prazer em trocar ideias e coisas que encontrei nessa minha “cruzada”…rs

P.S.: A parte II do post sai na quarta-feira, dia 08 de junho. Falarei especificamente sobre coletor menstrual. 😉

P.S.2: Se você se interessou pelo diafragma, aqui tem um livro gratuito que conta a história toda e detalha super bem o método: Diafragma: uma escolha


Fontes:

1. Camargos AF, et al. Anticoncepção, endocrinologia e infertilidade: soluções para as questões da ciclicidade feminina. Belo Horizonte: COOPMED/UFMG, 2011.

2. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Critérios Médicos de Elegibilidade da OMS para Uso de Métodos Anticoncepcionais, 4ª edição. São Paulo, 2009. Ver original.

3. Sex in History, Reay Tannahill (Cardinal 1989)

4. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Critérios Médicos de Elegibilidade da OMS para Uso de Métodos Anticoncepcionais, 4ª edição. São Paulo, 2009. Ver original.

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    Margot

    Quando minha vida saiu dos trilhos percebi que podia ir pra qualquer lugar. Virei mochileira depois dos 30 e criei o blog pra contar sobre essa aventura.

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    • Olívia Barbosa

      Que post sensacional! Super completo. Obrigada por compartilhar sua experiência. <3

      • margarethfurtado

        Obrigada, Olívia. Fico muito feliz pelo seu comentário. =)
        Acabei de publicar a “Parte II” em que falo sobre o coletor menstrual. Fique à vontade pra opinar sempre. <3

    • Ana Carolina Barbosa

      Texto maravilhoso! (E página maravilhosa) Muito obrigada. Sua gineco é do Rio?

      • margarethfurtado

        Eu que agradeço, Ana. <3
        Infelizmente ela não é do Rio. Ela é de São Paulo. =(

        Quer o contato mesmo assim? Estou perguntando para algumas amigas do Rio se elas sabem de alguém com o perfil parecido com o dela. Qualquer novidade, te aviso. =)

        • Ana Carolina Barbosa

          São Paulo fica mais difícil, que pena! Se você souber de alguma boa no Rio eu queria sim indicação.Obrigada 🙂
          bjos

        • Carolina Leiderfarb

          oi Margot, gostaria de ter o contato, sim. Poderia passar?

    • Yriz Soares

      Uau Margot!! Quanta info bacana. Seu blog tá ó-te-mo!!!Amei!! (PS: A Shak deu um toque todo especial, tô rindo até agora 😉 #tudooquevcquersaberenuncaperguntou #sónadivatem

      • E pode perguntar tudo que quiser…rs
        Sou a loka do diafragma…hahaha

        A-DO-REI a #sónadivatem <3

    • Marcia Souza

      Vc lembra o nome da farmácia de manipulação que fez o espermicida? Obrigada!

      • Oi, Marcia. =)
        Eu fiz pela Droga Derma, eles têm a possibilidade de fazer diretamente pelo site. Você envia a receita e eles respondem com o orçamento. Além disso, entregam em casa. <3
        O site é drogaderma.com.br e o tudo, na época, saiu R$43 (já com a taxa de entrega).

        Bjs

    • Sandra

      Parabéns pela matéria, estou pensando em adotar esse método, vc mencionou que a médica ensinou vc usar isso é padrão?
      Não quero correr nenhum risco de engravidar um abraço.

      • Olá, Sandra.
        Infelizmente, esse não é o padrão. Geralmente os médicos só medem e você tem que se virar.

        Ela ensina mesmo, na prática. Mas isso porque ela usou o método a vida inteira e por isso sabe muito sobre o diafragma. =)
        Eu estou já há 1 ano e 8 meses usando e não troco por nada. Se tiver mais alguma pergunta, estou a disposição.

        Beijos, Margareth.

    DivaDeMochila

    No Diva de Mochila você acompanha a viagem de volta ao mundo de uma carioca-paulista que virou mochileira depois dos 30. Bem-vindo (a) ao blog!

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